24 junho 2017

catalina gonzález restrepo

Silencio en la mesa

Mientras masticamos la carne del abandono
alguien ha corrido una silla
para sentarse y beber con nosotros.

Vivimos en sonidos que no podemos decir,
improvisamos un concierto que jamás vendrá:
el piano suena muy alto y mis voces callan.

Morir es mejor que oír,
los músicos son niños con hambre.


Silêncio na mesa

Enquanto mastigamos a carne do abandono
alguém pegou numa cadeira
para se sentar e beber connosco.

Vivemos em sons que não conseguimos dizer,
improvisamos um concerto que jamais virá:
o piano toca muito alto e as minhas vozes calam.

Morrer é melhor que ouvir,
os músicos são crianças com fome.




21 junho 2017

natalia toledo

Yoo lidxe’

Dxi guca’ nahuiini’ guse’ ndaani’ na’ jñaa biida’
sica beeu ndaani’ ladxi’do’ guibá’.
Luuna’ stidu xiaa ni biree ndaani’ xpichu’ yaga bioongo’.
Gudxite nia’ strompi’pi’ bine’ laa za,
ne guie’ sti matamoro gúca behua xiñaa bitua’dxi riguíte nia’ ca bizana’.
Sica rucuiidxicabe benda buaa lu gubidxa zacaca gusidu lu daa,
galaa íque lagadu rasi belecrú.
Cayaca gueta suquii, cadiee doo ria’ ne guixhe, cayaca guendaró,
cayaba nisaguie guidxilayú, rucha’huidu dxuladi,
ne ndaani’ ti xiga ndo’pa’ ri de’du telayú.


Casa primeira

Em criança dormi nos braços da minha avó
como a lua no coração do céu.
A cama: algodão que saiu da fruta estragada,
Fiz das árvores azeite; e vendi aos meus amigos
como guaxinim a flor da acácia.
Tal como secam os camarões ao sol, estendíamo-nos numa trouxa
Por cima das nossas pálpebras dormia a cruz de estrelas.
Tortas feitas no barro, fios tingidos para as redes,
a comida fazia-se com a felicidade de uma morrinha sobre a terra,
batíamos o chocolate
e numa xícara enorme serviam-nos a madrugada

20 junho 2017

teresa de jesús casique

Tu padre no te espera ya. Entre cabras
y perros fue olvidando todo aquello
que alguna vez le perteneció incluida tu
fama y el último beso.

Tu casa es una trinchera de gatos
despellejados. La cama que plantaste
con tanto esfuerzo en el ático, bordeando
al mejor de los árboles, es ahora
el lugar donde copulan palomas para que
nazcan insectos.

Tu hijo se me perdió en el vientre,
no tendrá que enterrarte.

¿Cuántos pueblos liberaste? ¿Qué harás
con tanta medalla,
tantísima joya obtenidas del saqueo?
Ningún mueble quedó para adornarlo
con alguno de tus dorados trofeos.

Vienes de la guerra y qué encuentras: una
carreta llevándome


O teu pai já não te espera. Entre cabras
e cães foi esquecendo tudo aquilo
que alguma vez lhe pertenceu incluindo a tua
fama e o último beijo.

A tua casa é uma trincheira de gatos
esfolados. A cama que colocaste
com tanto esforço no sótão, bordejando
o melhor das árvores, é agora
o lugar onde as pombas copulam para que
nasçam insetos.

O teu filho perdeu-se-me no ventre,
não terá que te enterrar.

Quantos povos libertaste? Que farás
com tantas medalhas
tantas joias obtidas no saque?
Nenhum móvel ficou para ser adornado
com algum dos teus dourados troféus.

Vens da guerra e o que encontras: uma
carroça levando-me.




15 junho 2017

abril medina

Soñé mujeres sosteniendo sus vaginas
hombres devorándose los miembros
bajo el sol
llevé una mano entre mis piernas y recé
porque siguiera ahí
intacto lo profundo bajo el vello
no podía llorar
supe que los dedos mienten
que la oscuridad no tiene tacto
y cualquier abismo se parece al útero

alguien calló
entre mi cuerpo insondable
y no pude rescatarlo

ellas temían ser arrastradas
caer al vacío si separaban las piernas
cuando estaban solas
o siendo soñadas

apreté los ojos abiertos
desde adentro
y me resistí a mirar cómo se daban vuelta
para que la asfixia
no golpeara con violencia
la cuenca de los senos

ellos
sembraban genitales como minas en la tierra
se protegían del vértigo
y era la mutilación
una forma de andamiaje

algunos hurgaban
removían la herida para estar seguros
de que no se abrieran
un par de labios
bajo la sangre.


Sonhei mulheres sustentando as suas vaginas
homens a devorar os membros
debaixo do sol
pus uma mão entre as pernas e rezei
porque continuava ali
intacto o profundo sob a penugem
não conseguia chorar
soube que os dedos mentem
que a escuridão não tem tato
e qualquer abismo se parece com o útero

alguém calou
entre o meu corpo insondável
e não consegui resgatá-lo

elas temiam ser arrastadas
cair no vazio se separassem as pernas
quando estavam sozinhas
ou a ser sonhadas

apertei os olhos abertos
por dentro
resisti ver como davam a volta
para que a asfixia
não golpeasse com violência
a enseada dos seios

eles
semeavam genitais como minas na terra
protegiam-se da vertigem
era a mutilação
uma forma de andaimes

alguns mexiam
removiam a ferida para terem a certeza
de que não se abririam
um par de lábios
sob o sangue.

12 junho 2017

alicia aza

EURÍDICE

Eras el horizonte luminoso
de las noches sin velas ni letargos,
donde la oscuridad vence al olvido
y el resuello corrompe la amargura.

Me hablaste de aquel sueño de arrecifes
en las tierras lejanas y vidriosas
de mares del cortejo receloso
lejano de sus burdos cumplimientos.

Pero tu voz quebrada y solitaria
se confundió en la mía sin compases
y me transformó en lira de tus cantos,
halcón para tus ojos sometidos,
nenúfar de tus noches turbulentas,
crimen para tus labios de ceniza.

Y te amé mito débil de papel,
desarmado en tu aliento palpitante
con ritmo de cadera de otras voces.

Seré una silueta en tu memoria,
daré viento al molino de tus ojos,
armas para tu torso de guerrero.

Pero nunca susurres mi canción
o morirás ahogado con los besos
líquidos de las novias inmortales.


EURÍDICE

Eras o horizonte luminoso
das noites sem velas nem letargias,
onde a escuridão vence o esquecimento
e o fôlego corrompe a amargura.

Falaste-me desse sonho de recifes
nas terras longínquas e vítreas
de mares do cortejo receoso
distante dos seus grossos ofícios.

Mas a tua voz quebrada e solitária
confundiu-se com a minha sem compassos
transformou-me em lira dos teus cantos,
falcão para os teus olhos submetidos,
nenúfar das tuas noites turbulentas,
crime para os teus lábios de cinza.

E amei-te mito débil de papel,
desarmado em teu alento palpitante
com balanço de anca de outras vozes.

Serei uma silhueta em tua memória,
darei vento ao moinho dos teus olhos,
armas para o teu torso de guerreiro.

Mas nunca sussurres a minha canção
ou morrerás afogado com os beijos
líquidos das noivas imortais.

08 junho 2017

eve de laudec

Il est des silences ligneux
Qui font racines
Je ne veux pas être femme-tronc
Ligaturée
Dans le grand sol ma bouche bée

Ainsi sourd ma sève inféconde


Há silêncios de lenha
Que se tornam raízes
Não quero estar mulher-tronco
Atada
Ao grande solo boquiaberta

Assim surda a minha seiva infecunda



04 junho 2017

rita valdivia

En el graznido de mi noche
más largo que un pensamiento apelmazado
por la atmósfera;
los deseos se cuajan como alimento vital
violados por el aire.
Yo subía por las gradas desgastadas del tiempo;
cada paso removía la huella de mis ancestros,
y su aullido rompía el silencio octogonal.
Buscaba inspirarme en tu risa;
pero tu risa flotaba estática en el vacío,
tratando de llamar la atención
de los harapientos personajes
que desfilaban por filas verticales.
La mezcla de vida y hastío
se escapa por las mucosas
negando los caminos,
las manos diligentes,
los ojos purulentos de sabiduría,
los instintos metidos en cascarones.
Sobre la noche, sobre la risa vacía,
sobre mi sombra engrandecida por la fiebre
se mezcla la lluvia de indiferencia
fosilizando ideas premáticas.

No grasnido da minha noite
maior que um pensamento amassado
pela atmosfera;
os desejos coalham-se como alimento vital
violados pelo ar.
Eu subia as escadarias desgastadas do tempo;
cada passo removia a pegada dos meus ancestrais,
e o seu uivo rompia o silêncio octogonal.
Procurava inspirar-me no teu riso;
porém o teu riso flutuava estático no vazio,
tentando chamar a atenção
das esfarrapadas personagens
que desfilavam em filas verticais.
A mistura de vida e fastio
escapa-se pelas mucosas
negando os caminhos,
as mãos diligentes,
os olhos purulentos de sabedoria,
os instintos metidos em cascas.
Sobre a noite, sobre o riso vazio,
sobre a minha sombra engrandecida pela febre
mistura-se a chuva da indiferença
fossilizando ideias premáticas.

02 junho 2017

liliana lukin

Campo quirúrgico. 18

El invierno allí como un estado
de los seres y las cosas macerándose
en la necesidad, el vaho en las bocas,
la voluntad de amanecer atravesando
lo muerto del frío en los jardines.

(Nunca vi florecer como en la infancia
las flores de papel, los pensamientos,
las calas, los naranjos y el ciruelo,
donde mamá armaba los ramos
mientras amasaba mi destierro).

El color en las fotos: esos pétalos
secados en la estufa, devorando
la astucia del tiempo en el fermento,
el respirar atento de la criatura que soy
cuando no estoy aquí, cuando no he vuelto.

Ahora todo lo vivo participa en lo que vuelve
y come de mí, ese reclamo del mundo es
la condena por el crimen de escritura,
vivido como una
equivocación de la naturaleza.


Campo cirúrgico. 18

O inverno ali como um estado
dos seres e as coisas macerando-se
na necessidade, o bafejo nas bocas,
a vontade de amanhecer atravessando
o morto do frio nos jardins.

(Nunca vi florescer como na infância
as flores de papel, os pensamentos,
os lírios de água, as laranjeiras e a ameixeira,
onde a mãe armava os ramos
enquanto amassava o meu desterro)

A cor nas fotos: essas pétalas
secas na estufa, devorando
a astúcia do tempo no fermento,
o respirar atento da criatura que sou
quando não estou aqui, quando não voltei.

Agora todo o vivo participa no que volta
e come de mim, essa atração do mundo é
a condenação pelo crime de escrita,
vivido como um
equívoco da natureza.

26 maio 2017

mariel damián

Mi mente en una cita

Tú miras mis ojos mientras hablas,
yo miro tus labios moverse.

Cada palabra que nace en tu boca
es un beso que he perdido.

A minha mente num encontro

Focas os meus olhos enquanto falas,
vejo o movimento dos teus lábios.

Cada palavra nascida na tua boca
é um beijo que me perdeu.



23 maio 2017

sofia fiorini

Se apro la finestra domattina
è per salutare la luce
che chiede il prezzo della notte
– so di dover meritare
l’ombra che porto a passeggio,
o per riflesso di bestia
che non sa stare a lungo ferma.
Mi alzo come gli uomini addestrati
a cercare un senso tra colazione e cena.
Elefanti che non riescono a impazzire:
il nostro circo.

Quando amanhã de manhã abro a janela
é para saudar a luz
que inquire o preço da noite
- sei que tenho de merecer
a sombra com que passeio,
ou por reflexo da besta
que não sabe passar muito tempo detido.
Levanto-me como os homens formatados
procurando um sentido entre o pequeno almoço e a ceia.
Elefantes que não conseguem enlouquecer:
o nosso circo



18 maio 2017

carilda oliver labra

Anoche

Anoche me acosté con un hombre y su sombra.
Las constelaciones nada saben del caso.
Sus besos eran balas que yo enseñé a volar.
Hubo un paro cardíaco.

El joven
nadaba como las olas.
Era tétrico,
suave,
me dio con un martillito en las articulaciones.
Vivimos ese rato de selva,
esa salud colérica
con que nos mata el hambre de otro cuerpo.

Anoche tuve un náufrago en la cama.
Me profanó el maldito.
Envuelto en dios y en sábana
nunca pidió permiso.
Todavía su rayo láser me traspasa.

Hablábamos del cosmos y de iconografía,
pero todo vino abajo
cuando me dio el santo y seña.

Hoy encontré esa mancha en el lecho,
tan honda
que me puse a pensar gravemente:
la vida cabe en una gota.


Ontem à noite

Ontem à noite deitei-me com um homem e a sua sombra.
As constelações nada sabem do caso.
Os seus beijos eram balas que ensinei a voar.
Houve uma paragem cardíaca.

O jovem
nadava como as ondas.
Era tétrico,
suave,
deu-me com um martelinho nas articulações
Vivemos esse tempo de selva
essa saúde colérica
que nos mata a fome de outro corpo.

Ontem à noite tive um náufrago na cama.
Profanou-me o maldito.
Envolto em deus e em lençóis
nunca pediu licença.
O seu raio laser ainda me trespassa.
mas tudo caiu
quando me deu o símbolo.

Hoje encontrei esta mancha na cama
tão funda
que me pus a pensar gravemente:
a vida cabe numa gota.

14 maio 2017

xóchitl niezhdanova

Morbidez del atavismo

Se desliza por túneles de lava.
Olfatea febril, subterráneo,
gira al ritmo de un ritmo más lejano.
Corrompe el circuito de la noche.

Su ola de tentáculos pervierte el sueño,
calienta con hilo de su aliento el aire,
se delezna en la sangre y la subleva,
hace del vientre su refugio de los labios.

Con punta de esmeril el ansia orada,
la degrada a mustios reflejos de carne, desasosiego.

En el filo de sus fauces el cuerpo fulgura,
se desfiguran las formas entre los colmillos de su lascivo embate.

El deseo: péndulo que oscila en el sexo cavernoso de la noche.

En el lecho, la silueta sola, filtro de células, decanta miedo,
los tentáculos se entrelazan
con la respiración preñada de una sombra.

Brama la tierra.

Latigazo en la médula:
unos ojos abiertos tantean en el vacío la ausencia de los cuerpos.


Morbidez do atavismo

Desliza por túneis de lava.
Fareja febril, subterrâneo,
roda ao ritmo de um ritmo mais distante.
Corrompe o circuito da noite.

A sua onde de tentáculos perverte o sonho,
aquece com o fio do seu sopro o ar,
escorre pelo sangue, subleva-o,
faz do ventre o refúgio dos seus lábios.

Com ponta de esmeril a ansiedade orada,
degradação em murchos reflexos de carne, desassossego.

No gume das suas fauces o corpo fulgura,
desfiguram-se as formas entre os caninos do seu lascivo embate

O desejo: pêndulo que oscila no sexo cavernoso da noite.

Na cama, apenas a silhueta, filtro de células, decanta medo,
os tentáculos entrelaçam-se
com a respiração prenhe de uma sombra.

Brama a terra.

Chicotada na medula:
uns olhos abertos tenteiam no vazio a ausência dos corpos.

10 maio 2017

katia rejón


Acomodo un balde vacío
en medio de la sala
para atrapar la lluvia
pero ningún traste que amortigüe
el sudor de tierra que abolla las macetas de las rosas

La verdad es que hoy no estoy de humor para tantas guerras
para sembrar palmeras que den sombra a las estatuas,
también es bueno amar las cosas simples
las tazas y su olor a pan
el tiempo
calcular la hondura del mar
y suponer que es metálico
que hay historias dulces que no se cuentan porquesí
que hay cadáveres jugando al ajedrez
con la lengua del poema

me he tragado cenizas
y algunas onzas de desprecio
pero necesito un día
a lo mejor ser distante, huérfana de cuerpo
coser con tristeza
mi esqueleto


Está um consenso em balde vazio
no meio da sala
para recolher a chuva
sem pieguice que amorteça
o suor da terra que amolga os vasos das rosas.

A verdade é que hoje não estou para tantas guerras
para semear palmeiras formatadas para fornecer sombra às estátuas,
também é fixe amar as coisas simples
as xícaras com o seu cheiro a pão
o tempo
calcular as profundezas do mar
e supor que é metálico
que há histórias doces que não se narram porque sim
que há cadáveres a jogar xadrez
com a língua do poema.

engoli cinzas
e algumas onças de desprezo
mas preciso de um dia
quando muito ser distante, órfã de corpo
coser com tristeza
o meu esqueleto

05 maio 2017

estela figueroa

Naturaleza muerta

Tomates rojos
con una hendidura negra.
Limones amarillos
con pezones verdes.
Zanahorias erectas
papas ovales
bananas que yacen arqueadas.

Sexo sobre la mesa
donde amaso el pan.


Natureza morta

Tomates vermelhos
com uma fenda preta.
Limões amarelos
com mamilos verdes.
Cenouras eretas
batatas ovais
bananas que jazem arqueadas.

Sexo sobre a mesa
onde amasso o pão.