14 novembro 2017

flaminia cruciani

He sido parida por un hombre
por el dolor de su oreja
en la alegría de un resto de eternidad
raspado en el fondo del fuego
por manos donde estaba escondido un dios.
Nosotros, es verdad, tenemos la misma sangre magnética
quieres castigarme porque lo parezco
porque de mí solo has acunado las reliquias
porque he nacido póstuma
y te buscas en mí, pero no te encuentras
porque solo soy una mortaja
un rosario de flamas que ruega al cielo.


Fui parida por um homem
pela dor da sua orelha
na alegria de uma cópia de eternidade
rasurada no fundo do fogo
por mãos onde se escondia um deus.
Nós, é verdade, temos o mesmo sangue magnético
queres punir-me pelo que pareço
que de mim só aninhaste as relíquias
que nasci póstuma
e procuras-te em mim mas não te encontras
que apenas sou uma mortalha
um rosário de chamas implorando os céus.



08 novembro 2017

bibiana bernal

Pájaro de piedra

Ser de piedra y creerse pájaro
porque el viento propaga el polvo de las manos.

Verse ave en el reflejo,
aunque inmóvil sobre el asfalto,
abrasado por la luz de las cinco de la tarde.

Saberse nido
en un recodo del día que agoniza,
sin poder roer el aire.

Ser de carne y creerse hoja o pluma
y al final de la jornada ser quien cae.

Ser uno y creerse otro y otro y otro,
hasta anochecer sobre sí mismo
y volver al origen,
donde la arcilla no tenía rostro
y las alas no pesaban tanto.


Pássaro de pedra

Ser de pedra e julgar-se pássaro
porque o vento propaga o pó das mãos.

Ver-se ave no reflexo,
embora imóvel no asfalto,
abrasado pela luz das cinco da tarde.

Saber-se ninho
num recuncho do dia que agoniza,
sem poder roer o ar.

Ser de carne e julgar-se folha ou pena
e no fim do dia ser quem cai.

Ser um e julgar-se outro e outro e outro,
até sobre si anoitecer
e voltar à origem,
onde a argila não tinha rosto
e as asas não pesavam tanto.


03 novembro 2017

estelle fenzy

La forêt en son sommeil se rassemble après toi. Son œil fugitif mord les cimes. Superpose les rayons.
Ce sont de muettes effusions. Dans une lumière en sourdine.
Et tout à coup – la nuit.
La forêt pleine à nouveau. Unie, mousse et rideau. Espace éperdu, écheveau de légendes.
Comme, au fond de soi, l’entière origine du cœur animal. Délesté de ses peurs.

O bosque no seu sono dobra-se depois de ti. O seu olho fugitivo morde os altos. Sobrepõe os raios.
São efusões mudas. Numa luz em surdina.
E de repente – a noite.
O bosque pleno de novo. Unido, musgo e cortina. Espaço intenso, acervo de lendas.

Como, no fundo de si, a inteira origem do coração animal. Despojado dos seus medos.

27 outubro 2017

julieta marchant

CAMINAMOS PENSANDO en el nombre
en su obrar sigiloso
el lento proceder de una palabra.
Lo que heredé de mi madre y lo que ella de la suya heredó:
un nombre endurecido por el tiempo
la etiqueta que la carne tolera.
El rastro que en nosotras se abandona
los cuerpos reposan en su quietud imaginaria
de mi madre me separa un muro
a través de él la escucho quejarse
su desvelo me sostiene.
Huye la imagen y con ella el invierno
–las estaciones cavan la ausencia–
resguardo una escena, circula adentro el trazo que la borra.
Si pudiese escribir sobre un recuerdo cualquiera
que en el trayecto se resistiera a la inmovilidad
la letra un puñado de plumas que sepultadas pretenden.
Esta lejanía atesora un cadáver.
Las manos de mi abuela trenzaron un pasado distinto al de las fotografías
avizoro una cierta cadencia en el reloj oprimiendo su muñeca
el pelo terso, su canosidad embrutecida por el limón
la enagua acaso, los objetos –pensamos–
mientras mi madre clasifica vestidos que nadie volverá a usar.
Lo que alguna vez cubrió un cuerpo ahora lo descubre
inservible y desposeído de sus partes.
Desmantelo la casa
me ovillo entonces
por el contacto con la muerte replegarse hacia la infancia
retroceder
protejo retazos
zurzo
donde la tela cede y oscurece la memoria
aprieto la mano.
Restituir la herencia de un nombre
con otro que recubre el espacio que el primero desdeñó
un origen fraguado apenas
reconocerse tal vez
en el olvido ajeno
las palabras flotan y rajan.
Estrechas salas de estar amontono:
esquinado el patio de hibiscus, mi madre anudando tallos
rudimentarias estrategias para encauzar un árbol aún minúsculo
yo amarro también, por imitación o desgano:
una cierta tendencia al orden
o la fe heredada en los métodos.
Simultáneos nudos poblando el paisaje
caracoles quebrados en el trayecto involuntario de un niño
breves muertes en mi pequeño pie resuenan.
El pulso empuja hacia el interior, redimo lo impreciso
que me habita cuando intento alcanzar
la huella de mi pie
su absurda rebeldía al arquearse hacia adentro
las plantillas que intentaron refrenarlo
(un cuerpo manifiesta su diferencia).
Los zapatos de mi abuela deformados
sus dedos martilleando la gamuza
la gruesa cicatriz vertical que cruza el empeine de mi madre
y quiebra el ángulo de la pierna.
Las diferencias nos hicieron el nombre.
En el patio un árbol atado a otro mayor simula perfección
me sobrepongo un vestido que nadie volverá a usar
ella dobla y clasifica prendas aún tibias
que en cajas preservarán su color.
Lo que una vez cobijó y que ahora la carne despoja.
Enmiendo mi nombre, me reanudo.

CAMINHAMOS PENSANDO no nome
na sua operação sigilosa
o lento processo de uma palavra.
O que herdei da minha mãe e o que ela herdou da sua :
um nome endurecido pelo tempo
a etiqueta que a carne tolera.
O rasto que em nós se abandona
os corpos repousam na sua quietude imaginária
da minha mãe separa-me uma parede
através da qual a oiço queixar-se
o seu desvelo me sustém.
Foge a imagem e com ela o inverno
- as estações cavam a ausência -
Preservo uma cena, circula por dentro o traço que a apaga.
Se pudesse escrever sobre uma recordação qualquer
que no trajeto resistisse à imobilidade
a letra um punhado de penas que sepultadas pretendem.
Esta lonjura aprecia um cadáver.
As mãos da minha avó entrelaçaram um passado diferente das fotografias
entrevejo uma certa cadência no relógio oprimindo o seu pulso
o cabelo macio, o seu grisalho embrutecido pelo limão
a combinação porventura, os objetos – pensamos -
enquanto a minha mãe classifica vestes que ninguém voltará a usar.
Aquilo que certa vez cobriu o corpo, descobre-o agora
inútil e despossuído das suas partes.
Desmantelo a casa
enovelo-me então
pelo contacto com a morte recuar até à infância
retroceder
protejo retalhos
zurzo
onde o tecido cede e obscurece a memória
aperto a mão.
Restituir a herança de um nome
com outro que preenche o espaço que o primeiro desdenhou
uma origem forjada apenas
reconhecer-se talvez
no esquecimento alheio
as palavras descolam e racham.
Estreitas salas de estar amontoado:
dobrado o pátio de hibiscos, a minha mãe amarrando talos
rudimentares estratégias para encaminhar uma árvore ainda min+uscula
eu amarro também, por imitação ou desalento :
uma certa tendência para a ordem
ou a fé herdada nos métodos.
Simultâneos nós povoando a paisagem
caracóis quebrados no trajeto involuntário de uma criança
breves mortes no meu pequeno pé ressoam.
A pulsação empurra para o interior, redimo o impreciso
que me habita quando tento alcançar
a marca do meu pé
a sua absurda rebeldia em arquear-se para dentro
as palmilhas que o tentaram refrear
(um corpo manifesta a sua diferença).
Os sapatos da minha avó deformados
os seus dedos martelando a camurça
a espessa cicatriz vertical que cruza o peito do pé da minha mãe
e quebra o ângulo da perna.
As diferenças fizeram-nos o nome.
No pátio uma árvore atada a outra maior simula perfeição
sobreponho em mim um vestido que ninguém voltará a usar.
ela dobra e classifica peças ainda quentes
que nas caixas preservaram a sua cor.
O que uma vez cobiçou e que agora a carne despoja
Emendo o meu nome, recomeço-me.



18 outubro 2017

aracelis girma


Elegy

What to do with this knowledge
that our living is not guaranteed?

Perhaps one day you touch the young branch
of something beautiful. & it grows & grows
despite your birthdays & the death certificate,
& it one day shades the heads of something beautiful
or makes itself useful to the nest. Walk out
of your house, then, believing in this.
Nothing else matters.

All above us is the touching
of strangers & parrots,
some of them human,
some of them not human.
Listen to me. I am telling you
a true thing. This is the only kingdom.
The kingdom of touching;
the touches of the disappearing, things.


Elegia

Que fazer sabendo
que a nossa vida não está garantida?

Talvez um dia contactes o ramo jovem
de algo belo. E tal cresça e cresça
apesar do teu aniversário e do teu óbito,
e ensombre as cabeças de alguma coisa bela
ou se torne útil ao ninho. Põe-te a andar
da tua casa então, nessa crença,
Nada mais importa.

Acima de tudo e todos está o tato
de estranhos e papagaios,
alguns humanos
alguns não humanos.

Ouve. Digo-te
uma coisa verdadeira. Este é o único reino.
O reino do tato:
o contacto ao evanescente, coisas.


16 outubro 2017

wislawa szymborska

Pokój samobójcy

Myślicie pewnie, że pokój był pusty.
A tam trzy krzesła z mocnym oparciem.
Tam lampa dobra przeciw ciemności.
Biurko, na biurku portfel, gazety.
Budda niefrasobliwy, Jezus frasobliwy.
Siedem słoni na szczęście, a w szufladzie notes.
Myślicie, że tam naszych adresów nie było?

Brakło, myślicie, książek, obrazów i płyt?
A tam pocieszająca trąbka w czarnych rękach.
Saskia z serdecznym kwiatkiem.
Rado iskra bogów.
Odys na półce w życiodajnym śnie
po trudach pieśni piątej.
Moraliści,
nazwiska wypisane złotymi zgłoskami
na pięknie grabowanych grzbietach.
Politycy tuż obok trzymali się prosto.

I nie bez wyjścia, chociażby przez dzrwi,
nie bez widoków, chociażby przez okno,
wydawał sie ten pokój.
Okulary do spoglądania w dal leżały na parapecie.
Brzęczała jedna mucha, czyli żyła jeszcze.

Myślicie, że przynajmniej list wyjaśniał coś.
A jeżeli wam powiem, że listu nie było-
i tylu nas- przyjaciół, a wszyscy się pomieścili
W pustej kopercie opartej o szklankę.

O quarto do suicida

Aposto que julgavam que o quarto estava vazio.
Falso. Estavam três cadeirões de bom encosto
Uma lâmpada eficaz contra a escuridão.
Uma escrivaninha com uma carteira e alguns jornais.
Um Buda relaxado e um Cristo preocupado.
Sete elefantes da boa sorte, um caderno na gaveta
Pensam que não estavam lá os nossos contactos?

Acham que não estavam ali livros, quadros, discos?
Ali havia uma vigorosa trompete em mãos negras.
Saskia com a sua delicada flor.
Alegria, a faísca divina.

Ulisses na estante dormindo um sono reparador
depois dos trabalhos do canto quinto.
Moralistas,
nomes inscritos a letras douradas,
nas lombadas belamente esculpidas.
Ao lado os políticos mantendo-se situacionados.

Sem saída? Mas então a porta?
Sem perspetivas? A janela oferecia outras vistas

Os óculos para ver ao longe estavam sobre o parapeito
Zunia uma mosca, ainda estava viva.

Vocês pensam que pelo menos a carta explicaria qualquer coisa
E se vos dissesse que não havia carta -
e ele tinha tantos amigos, mas todos nós ajustámos na perfeição.
dentro do envelope vazio apoiado na chávena.



04 outubro 2017

paola valverde alier

PRIMERAS CIENCIAS

A Alfonso Chase

Los poetas aprendieron
de un maestro astrónomo

El maestro astrónomo
aprendió la geografía
y las matemáticas
de la mano de un navegante

Cada pluma en la cabeza
de un navegante
representaba
las direcciones de sus viajes

En sus viajes el navegante admiró
la geometría de los nenúfares

Un bárbaro marcó
esas figuras en su brazo

con sellos de barro
se repitieron los símbolos

El astrólogo
adoptó los nombres
que el poeta dio a las constelaciones

y el arte de escribir
vio la luz
en el vasto espacio oceánico


PRIMEIRAS CIÊNCIAS

A Alfonso Chase

Os poetas aprenderam
com um professor astrónomo

O professor astrónomo
aprendeu a geografia
e as matemáticas
pela mão de um marinheiro

Cada célula na cabeça
de um marinheiro
representava
as direções das suas viagens

Nas sua viagens o marinheiro admirou
a geometria dos nenúfares

Um bárbaro inscreveu
essas figuras no seu braço

em marcas de barro
foram repetidos os símbolos

O astrólogo
adotou os nomes
com que o poeta batizou as constelações

e a arte de escrever
viu a luz

no vasto espaço oceânico

27 setembro 2017

anne carson

Essay on What I Think About Most

Error.
And its emotions.
On the brink of error is a condition of fear
In the midst of error is a state of folly and defeat.
Realizing you’ve made an error brings shame and remorse
Or does it?

Let’s look into this.
Lots of people including Aristotle think error
An interesting and valuable mental event.
In his discussion of metaphor in the Rhetoric
Aristotle says there are 3 kinds of words.
Strange, ordinary and metaphorical.

“Strange words simple puzzle us;
ordinary words convey what we know already;
it is from metaphor that we can get hold of something new & fresh”
(Rhetoric, 1410b10-13).
In what does the freshness of metaphor consist?
Aristotle says that metaphor causes the mind to experience itself

in the act of making a mistake.
He pictures the mind moving along a plane surface
of ordinary language
when suddenly
that surface breaks or complicates.
Unexpectedness emerges.

At first it looks odd, contradictory or wrong,
Then it makes sense.
And at this moment, according to Aristotle,
the mind turns to itself and says:
“How true, and yet I mistook it!”
From the true mistakes of metaphor a lesson can be learned.

Not only that things are other than they seem,
and so we mistake them,
but that such mistakenness is valuable.
Hold onto it, Aristotle says,
there is much to be seen and felt here.
Metaphors teach the mind

to enjoy error
and to learn
from the juxtaposition of what is and what is not the case.
There is a Chinese proverb that says,
Brush cannot write two characters with the same stroke,
And yet

that is exactly what a good mistake does.
Here is an example.
It is a fragment of ancient Greek lyric
That contains an error of arithmetic.
The poet does not seem to know
That 2 + 2 = 4

Alkman fragment 20:
[?] made three seasons, summer
and winter and autumn third
and fourth spring when
there is blooming but to eat enough
is not.

Alkman lived in Sparta in the 7th century B.C.
Now Sparta was a poor country
and it is unlikely
that Alkman led a wealthy or well-fed life there.
This fact forms the background of his remarks
Which end in hunger.

Hunger always feels
like a mistake.
Alkman makes us experience this mistake
with him
by an effective use of computational error.
For a poor Spartan poet with nothing

left in his cupboard
at the end of winter—
along comes spring
like an afterthought of the natural economy,
fourth in a series of three,
unbalancing his arithmetic

and enjambing his verse.
Alkman’s poem breaks off midway through an iambic metron
with no explanation
of where spring came from
or why numbers don’t help us
control reality better.

There are three things I like about Alkman’s poem,
First is that it is small,
light
and more than perfectly economical.
Second that it seems to suggest colors like pale green
without ever naming them.
Third that it manages to put into play
some major metaphysical questions
(like Who made the world)
without overt analysis.
You notice the verb “made” in the first verse
has no subject: [?]

It is very unusual in Greek
for a verb to have no subject, in fact
it is a grammatical mistake.
Some philologists will tell you
that this mistake is just an accident of translation,
and the poem as we have it

is surely a fragment broken off
some longer text
and that Alkman almost certainly did
name the agent of creation
in the verses preceding what we have here.
Well that may be so.

But as you know the chief aim of philology
is to reduce all textual delight
to an accident of history.
And I am uneasy with any claim to know exactly
what a poet means to say,
So let’s leave the question mark there

at the beginning of the poem
and admire Alkman’s courage
in confronting what it brackets.

The fourth thing I like
about Alkman’s poem
is the impression it gives

of blurting out the truth in spite of itself.
Many a poet aspires
to this tone of inadvertent lucidity
but few realize it so simply asw Alkman.
Of course his simplicity is a fake.
Alkman is not simple at all,

he is a master contriver—
or what Aristotle would call an imitator
of reality.
Imitation (mimesis in Greek)
is Aristotle’s collective term for the true mistakes of poetry.
What I like about this term

is the ease with which it accepts
that what we are engaged in when we do poetry is error,
the willful creation of error,
the deliberate break and complication of mistakes
out of which may arise
unexpectedness.

So a poet like Alkman
sidesteps fear, anxiety, shame, remorse
and all the other silly emotions associated with making mistakes
in order to engage
the fact of the matter.
The fact of the matter for humans is imperfection.

Alkman breaks the rules of arithmetic
and jeopardizes grammar
and messes up the metrical form of his verse
in order to draw us into this fact.
At the end of the poem the fact remains
and Alkman is probably no less hungry.

Yet something has changed in the quotient of our expectations.
For in mistaking them,
Alkman has perfected something.
Indeed he has
more than perfected something.
Using a single brushstroke.

Ensaio sobre as coisas em que penso mais

Erro.
Suas emoções.
A prospetiva do erro é uma condição do medo.
O ventre do erro é um estando de loucura e vencimento.
Perceber estar em erro deflagra vergonha e remorso.
Será?

Vejamos.
Muitas pessoas, incluindo Aristóteles, acham que o erro
é um acontecimento mental interessante e credível.
Quando fala de metáfora na sua Retórica,
Aristóteles diz que há três tipos de palavras:
as incomuns, as comuns e as metafóricas.

As palavras incomuns simplesmente nos deslocam;
as palavras comuns transmitem-nos o que já sabíamos;
usar metáforas é a forma de darmo-nos com o novo e o fresco”
(Retórica, 1410b10-15).
Em que consiste essa frescura das metáforas?
Aristóteles diz que a metáfora faz com que a mente se experimente a si mesma

no ato de cometer um erro.
O imaginário é visto em movimento sobre uma superfície horizontal
feita de linguagem comum
e aí, de repente,
tal superfície estampida ou se complica
Emerge o que não se sabe.

Ao princípio parece outra coisa, contraditória ou disruptiva,
Depois faz sentidos
E nessa altura, segundo Aristóteles,
A mente a si se questiona e diz :
Que verdade!, e mesmo assim que equívoco!”
Dos erros verdadeiros da metáfora, aprende-se.

Não se trata de as coisas serem outras do que parecem
e por isso entremos em confusão,
mas esse equívoco é precioso.
Calma aí, diz Aristóteles,
há nisso muito para ver e viver
As metáforas educam a cabeça.

A curtir o erro
e a aprender
na justaposição entre o que está e o que não está
Há um provérbio chinês que diz,
um pincel não consegue escrever dois caracteres na mesma pincelada
E mesmo assim

é precisamente isso o que um bom erro faz.
Eis um exemplo.
É um fragmento de um poema grego antigo
imbuído de um erro de aritmética
O poeta parece não saber
que 2 + 2 = 4

Fragmento Alkman 20:
[?] feitas três estações, verão
e inverno e em terceiro lugar outono
e em quarto lugar primavera quando
há fertilidades mas para comer
não é suficiente .

Alkman viveu em Esparta no século 7 antes de Cristo.
Neste momento Esparta é um estando pobre
e não parece provável
que Alkman vivesse uma vida de rico que come em abundância.
Tal facto constitui-se bastidor das suas notas
que desaguam na fome.

A fome sempre esteve percecionada
como um erro.
Alkman obriga-nos a experimentar o erro
com ele
através do uso efetivo do erro computacional.
Para um pobre poeta espartano sem nada.

no seu armário
no fim do inverno -
dejeta o começo da primavera
como evento outsider da economia natural
a quarta em três
desequilibrada a sua aritmética
e sua linha jâmbica.

O poema de Alkman está partido em dois na metrificação jâmbica
sem explicações
sobre donde vem a primavera
ou porque é que os números não ajudam
a controlar melhor a realidade.

São três as coisas que me interessam no poema de Alkman,
A primeira : é pequeno,
leve,
mais que uma economia perfeita.
Segunda : parece sugerir cores como o verde pálido
sem nunca as nomear.

Terceira: consegue pôr a brilhar
algumas questões metafísicas de primeira grandeza
(como: Quem fez o mundo)
sem excesso de análise.
Foquemo-nos na expressão verbal “fazer” do primeiro verso
sem sujeito : [?]

É muito incomum em grego
haver verbo sem sujeito, de facto
é um erro gramatical.
Há filologistas que dirão
que tal erro mais não é que um acidente de tradução,
e que o poema, tal como nos chegou
é certamente um fragmento solto
de um texto mais extenso
e que, quase de certeza, Alkman designou
o agente da criação
nos versos precedentes.
Talvez, talvez.

Mas como é sabido o principal objetivo da filologia
é reduzir todo o prazer textual
a um mero acidente histórico.
Não há conforto em saber com exatidão
o que o poeta quer dizer.
Deixemos, assim, a interrogação aqui.

no início do poema
admirando a coragem de Alkman
no confronto com os parênteses.

A quarta coisa de que gosto
no poema de Alkman
é a impressão que dá

de fazer com que deflagre a verdade, contra si mesma,
Muitos poetas almejam
essa tonalidade de lucidez não vigiada
mas poucos a alcançam como Alkman.
Claro que a sua simplicidade é falsa
Alkman não é tão simples como isso.

é mestre do artifício -
ou o que Aristóteles poderia chamar « imitador »
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o termo que Aristóteles utiliza para os erros verdadeiros da poesia.
Como gosto deste vocábulo!

é a simplicidade com que admite
que aquilo que nos entranha quando se faz poesia é erro,
a obstinada criação do erro
a quebra deliberada e as complicações dos erros
de onde pode emergir
o inesperado.

Assim, um porta como Alkman
põe de lado o medo, a ansiedade, a vergonha, o remorso
e todas as patéticas emoções associadas ao cometimento de erros
para adentrar
a pólvora da questão.
A pólvora da questão, no caso dos humanos, é a imperfeição.

Alkman estilhaça as regras da aritmética
e javarda a gramática
não escande o seu verso
para submeter a audiência a esse facto.
No fim do poema, permanece o facto
e provavelmente Alkman não tem menos fome.

No entanto algo mudou no coeficiente das nossas expetativas.
Ao levar-nos ao engodo
Alkman aperfeiçoou alguma coisa.
De facto
fez mais do que melhorar
No uso de um simples pincel