25 fevereiro 2018

alfonsina clariá

La palabra en tu boca,
gema, estalactita,
ascua que promete
nunca consumirse.

La palabra, rocío,
lluvia lenta,
música tenue,
agua que corre.

No sé devolver un río,
si no es con una sed eterna.

A palavra na tua boca,
gema, estalactite,
brasa que promete
nunca se consumir.

A palavra, rossio,
chuva lenta,
música ténue,
água que corre.

Não sei devolver um rio,
se não for com uma sede eterna.



22 fevereiro 2018

laura accerboni


La parte dell’annegato (3)

Ieri il bambino più alto
ha messo una pietra
tra i denti
e ha iniziato a masticare.
Ha dimostrato
a sua madre
ciò che una bocca può fare
se messa all’orlo
e che una casa distrutta
è solo una casa distrutta.
Ieri tutti i bambini più alti
hanno messo alla fame i nemici
e raccolto i loro giochi in fretta.
Hanno dimostrato alle madri
l’ordine
e la disciplina dei morti
poi sono corsi
a lavarsi le mani
e ad ascoltare
le notizie
in forma di ninnenanne.


A parte do afogado (3)

Ontem o menino mais alto
levou uma pedra
entre os dentes
e começou a mastigar.
Demonstrou
à sua mãe
o que uma boca consegue
se for levada ao extremo
e que uma casa destruída
é apenas uma casa destruída.

Ontem todos os meninos mais altos
fizeram desfalecer de fome os seus inimigos
e recolheram apressadamente os seus brinquedos.
Demonstraram às mães
a ordem
e a disciplina dos mortos
depois correram
a lavar as mãos
e a ouvir
as noticias
em forma de canção de embalar.

isabel zapata

canción de cuna para sonámbulos

los científicos la llaman ‘memoria selectiva’
por eso no recuerdo al dr. zinser, ni recuerdo
por qué te quitaron medio estómago, para
qué servía la heparina, la última vez
que te reíste, qué cosa brillante mirabas
en la ventana, el nombre de la enfermera
lavando tu cuerpo.

pero recuerdo con qué palabras me explicaste
en el videocentro de avenida revolución
la buena idea de rentar una película nueva
en lugar de llevarnos las brujas otra vez
recuerdo el cuento del oso que no lo era,
le construyeron una fábrica encima mientras dormía
al salir de su cueva el capataz lo confundió
con un obrero, lo llevó con el supervisor, el gerente,
el director le dijo usted solamente es
un hombre tonto, sin afeitar y con un abrigo de pieles.

canção de embalar para sonâmbulos

os cientistas designam como “memória seletiva”
por isso não me lembro do dr. Zinser, nem me lembro
porque te tiraram meio estômago, para
que servia a heparina, a última vez
que riste, que coisa brilhante olhavas
na janela, o nome da enfermeira
que lavava o teu corpo.

mas lembro-me das palavras com que me explicaste
no vídeo-centro da avenida revolución
a boa ideia de alugar um filme novo
em vez das bruxas outra vez
lembro-me do conto do osso que não o era,
construiram-lhe uma fábrica em cima enquanto dormia
ao sair do seu buraco o capataz confundiu isso
com um operário, levou-o ao supervisor, ao gerente,
o diretor disse-lhe você apenas é
um homem pateta, que não faz a barba e com um sobretudo de pele.

19 fevereiro 2018

viviana paletta

el ropavejero

Tengo mi capa de trapos.
Mi fusil sin hombro.
El poncho mezquino del cielo
envuelve la luz,
esconde
una esquirla de plata.

El miedo flamea
con su casaca rotosa,
con su paso descalzo.

Camino sin agua y sin brújula.
No veo la rígida constelación sur.
Voy derechito a la emboscada
o al paludismo.

Oigo descargas lejanas, inconexas.
Es la interrumpida noticia que da el silencio.

Siento pozos de frío
en mi cuerpo.

o roupa usada

Tenho a minha capa de trapos.
O meu fuzil sem ombro
O poncho mesquinho do céu
envolve a luz,
esconde
um fragmento de prata.

O medo ondeia
com o seu casaco andrajoso
com o seu andar descalço.

Caminho sem água e sem bússola.
Não vejo a constelação sul
Vou direitinho à emboscada
ou ao paludismo.

Oiço descargas longínquas, desconexas.
É a interrompida notícia que dá o silêncio

Sinto poços de frio
no meu corpo.

16 fevereiro 2018

alejandra machuca

VI
cuando la casa está en silencio nos estamos quietos para no romper las tejas
el rumor de una muerte vieja nos abraza y dice callen
y callamos

si reímos reímos en silencio
y si queremos un abrazo
miramos la ventana

cuando la casa está en silencio no tronamos ningún hueso
no mordemos ningún bollo
ni tragamos ningún agua

nos estamos en silencio
para no despertar a la casa

VI
quando a casa está em silêncio ficamos quietinhos para não partir as telhas
o rumor de uma morte velha abraça-nos e diz estejam calados
e ficamos calados

se rimos, rimos em silêncio
e se queremos um abraço
olhamos para a janela

quando a casa está em silêncio não estalamos nenhum osso
não trincamos qualquer bolo
nem bebemos nenhuma água

ficamos em silêncio
para não acordar a casa



13 fevereiro 2018

blanca morel

Pequeña oración a Marina Tsvietáieva

¿Recuerdas que sabíamos cosas sin nombres? Susurrabas a mi lado palabras de Rusia. Como una cascada reíamos, dos niñas que ríen. Puse un grano de sal en tus labios al nombrarte, y al nombrarte ardió una hoguera en la playa. Hubo amor para nosotras. ¡Y más viejo que el amor, el dolor, tan nuevo y viejo! A ratos no estuvimos solas. El lenguaje es un látigo sagrado, amazona. Fueron nuestros pies pequeñas estrellas.

Pequena oração a Marina Tsvietáieva

Lembras-te que sabíamos coisas s3m nomes? Sussurravas ao meu lado palavras da Rússia. Como uma cachoeira ríamos, duas miúdas a rir. Pus um grão de sal nos teus lábios ao nomear-te, e ao nomear-te ardeu uma fogueira na praia. Houve amor para nós. E mais velha que o amor, a dor, tão nova e velha! Por momentos não estivemos sós. A linguagem é um chicote sagrado, amazona. Foram nossos pés pequenas estrelas.


10 fevereiro 2018

blanca wiethüchter

territorial
(fragmento)

sólo tengo este cuerpo. estos ojos y esta voz
esta larga travesía de sueño cansada de morir.
conservo el temor al atardecer.
no se comunica con nadie.

por mi modo de andar
algo descubierto un poco esperando
cambio frecuentemente de parecer
conmigo no puedo vivir segura.

habito un jardín de palabras
que han dejado de nombrarme
para nombrarla.
no me atrevo
pero es necesario decirlo. es un secreto.
en realidad somos dos.

ahora debo inventar a la otra.


territorial
(fragmento)

só deste corpo disponho. Estes olhos e esta voz
esta longa travessia de sonho cansada de morrer.
Conservo o temor ao fim da tarde.
Não se comunica com ninguém.

Pelo meu modo de andar
meio descoberto um pouco à espera
mudo frequentemente de aspeto
comigo não consigo viver segura-

habito um jardim de palavras
que deixaram de me nomear
para a nomear.
não me atrevo
mas é preciso dizer. É um segredo
na verdade somos dois.

Agora tenho de inventar a outra.




07 fevereiro 2018

verónica jiménez

¿Cómo debería ser una persona
que vigila un horno?

Enciendo un cigarrillo
miro el tiempo convertirse en ceniza.

Soy la vieja cocinera de La strada
aprieto la mandíbula al aspirar
nadie ve
cómo se vuelve piedra
el corazón cercado por el humo.

Ella alimentaba muchedumbres
siempre había demasiada hambre.

El vacío tras capas de piel y de sudor
se disgregaba y se reunía una y otra vez.

Buscaba palabras: demasiado, innumerable.

Los superlativos
eran las formas abstractas de su herida.

Como deveria ser uma pessoa
que vigia um forno?

Acendo um cigarro
vejo o tempo converter-se em cinza.

Sou a velha cozinheira de La Strada
aperto a mandíbula ao aspirar
ninguém vê
como se torna pedra
o coração sitiado pelo fumo.

Ela alimentava multidões
havia sempre demasiada fome.

O vazio debaixo de camadas de pele e suor
desagregava-se e juntava-se vezes sem conta.

Procurava palavras : demasiado, inumerável.

Os superlativos
eram as formas abstratas da sua ferida. 

03 fevereiro 2018

eleonora rimolo

SONO IO, mi riconosci,
ho un sopracciglio che supplica
il conto, alla fine di un misero
pasto: hanno appena
asfaltato, mi dici, ora
è quasi pronto, il cortile
che ci accoglie ha perso pure
l’ultimo coriandolo di verde,
un gorgoglio ci ricorda che
esistono ancora le fogne,
scrigni oscuri, custodi ultimi
delle lenzuola che solamente
sognammo di annusare.

SOU EU, reconheces-me,
tenho uma sobrancelha que suplica
a conta no fim de uma pobre
comida : apenas
asfaltaram, dizes-me, agora
está quase pronto, o pátio
que nos alberga até perdeu
o último coentro verde,
um borbotom lembra-nos que
ainda existem os esgotos,
cofres escuros, derradeiros anjos
dos lençóis que só
sonhamos cheirar.



31 janeiro 2018

sara torres

Yo abro tu pecho con mis diez dedos

Yo retiro la presión de las costillas
Hasta que tus pulmones se hinchan con gozo
Aumentan en tres su volumen

El aire que incorporas te hace levitar
Sobre las sábanas
Con la obstinación del corcho
Abandonas el fondo
Te impulsas hacia la superficie

Yo insuflo más aire desde tu ombligo
No cesa esa sed
Algunas burbujas de oxígeno se forman
Desatan tu risa

Ríes voces
Rastreo la genealogía de tus cantos
Yo te pregunto
Tú contestas:
Sobre las voces nada sé que pueda explicarse

Tómalo así por cierto

Tú me recoges y me llamas junto a ti
Diriges mi barbilla e introduces tu lengua
En esta boca de labios entreabiertos
Tú hablas dentro
Tú gimoteas y cantas dentro
Tú contestas:
Sobre las voces nada sé que pueda explicarse

Tómalo así por cierto

Abro o teu peito com os meus dez dedos

Retiro a pressão do lombo
Até os teus pulmões incharem de prazer
Por três se aumenta o seu volume

O ar que incorporas faz-te levitar
Sobre os lençóis
Com a obstinação da cortiça
Abandonas o fundo
Pulsas-te para a superfície

Insuflo mais ar a partir do teu umbigo
Não cessa essa sede
Formam-se algumas borbulhas de oxigénio
Desprendem o teu riso.

Ris vozes
Rastreio a genealogia dos teus cantos
Pergunto-te
Respondes :
Sobre as vozes nada sei que seja explicável.

É um adquirido

Recolhes e chamas-me para junto de ti
Orientas o meu queixo e introduzes a tua língua
Nesta boca de lábios entreabertos
Falas dentro
És queixume e canto dentro
Respondes :
Sobre as vozes nada sei que seja explicável.

É um adquirido



26 janeiro 2018

alessandra corbetta


Non c’è polvere indispensabile,
nemmeno quella tenuta religiosamente in silenzio
dentro le urne sacrali.
Nella polvere le sillabe sono scomposte,
non vogliono formare parole,
e dove tutto credevi tendere a più infinito
è solo gesso bianco
furtivamente sottratto dalla mano lesta della maestra
che cancella tutto
senza farti capire, senza farti copiare.

Como na escola

Não há pó indispensável,
nem mesmo o que é mantido religiosamente em silêncio
dentro de urnas sagradas.
No pó as sílabas são decompostas,
não querem formar palavras,
e onde todos julgavam tender ao infinito
é só gesso branco
furtivamente subtraído pela mão lesta da professora
que apaga tudo
sem te fazer compreender, sem te fazer copiar.