11 fevereiro 2015

maría gomez lara



Nací el mismo día que Emily Dickinson
casi dos siglos después
y las cosas han cambiado un poco
desde entonces

no tuve
su entereza ante el dolor
ni su oído sutil para las revelaciones

vivo en un edificio alto
donde no llegan los pájaros
sólo un ruido de sirenas
que no canta

es una ciudad inmensa
aquí todos somos Nadie
pero no hemos aprendido
a guardar el secreto:

al caminar regamos
nuestra nada en las esquinas

Nací con la piel oscura
en un país del trópico
y vine a buscarla a este estruendo
tan lejano de su voz
que se enredaba en las praderas

la imagino callando en los ladrillos
veo sus manuscritos de letras apretadas

como ramas de tina negra
que se quiebran
en cualquier envoltura
en la lista de mercado
y se enlazan otra vez
para inventar el mundo

Nací un diez de diciembre como ella
y no traje ese silencio

sin embargo

gracias al conjuro
de repetir sus versos
mientras cambian los semáforos

estoy a flote

todavía



Nasci no mesmo dia que Emily Dickinson
quase dois séculos depois
e as coisas mudaram um pouco
desde então

não tive
a sua integridade perante a dor
nem o seu ouvido subtil para as revelações

vivo num edifício alto
onde não chegam os pássaros
só um ruido de sereias
que não canta

é uma cidade imensa
aqui todos somos Ninguém
mas não aprendemos
a guardar o secredo:

ao caminhar regamos
o nosso nada pelas esquinas

Nasci com a pele escura
num país do trópico
e vim buscá-la a neste estrondo
tão longe da sua voz
que se enredava nas pradarias

imagino-a calando nos tijolos
vejo os seus manuscritos de letras apertadas

como ramos de avareza negra
que se quebram
em qualquer envolvimento
na lista de mercado
e se enlaçam outra vez
para inventar o mundo

Nasci num dez de dezembro como ela
e não trouxe esse silêncio

no entanto

graças ao conjuro
de repetir os seus versos
enquanto mudam os semáforos

estou na onda

ainda

)