20 fevereiro 2003

angelica liddell - Falsa Suicida

A Falsa Suicida


Ofélia, rapariga porno, fala de dentro de uma cabine de peep-show.

Horácio, estropiado, tolhido, entrevado num aparelho ortopédico, fala de dentro de um armazém onde vive e tortura bonecas de trapos. Fala para essas bonecas e sofre.

OFÉLIA
Nós, as mulheres nuas somos como os mortos. Ninguém consegue deixar de nos olhar. Que terão os nossos mamilos e o monte peludo do nosso ventre? Que coisa fatídica. Irremediável. Que pestilência. E que terão os olhos que olham, olham, olham. Se não estou morta não tenho outro remédio senão estar nua. Estou nua porque não estou morta. Naquele dia estava prestes a matar-me e sem cuequinhas. Sem cuequinhas. Foi aí que comecei a trabalhar. Todas as cabecinhas a olharem para mim. Exactamente como agora. Cabecinhas. Uma moeda, outra, outra, outra, olha para mim, masturba-te, mete moedas até que fique nua de tudo e tu fiques com a mão suja, olha para mim, masturba-te, olha-me nua para que perca a vergonha quando entrar na sala de autópsias.

HORÁCIO
E eu a matar gatos por tua culpa. O homem do saco. Crustáceo funerário. Caranguejo de luto. O que afoga animais pequeninos na piscina do teu arranha-céus. Desde esse dia não encontrei trabalho que fosse mais digno. Magarefe por compaixão. Mergulhaste nessa piscina? Curtiste a água clara? Tu que agora te ris nesse bordel de comédia, tu que antes só querias morrer. Morrer! Lembras-te? Engoliste alguma vez um pelo de gato enquanto nadavas? Prendeu-se-te alguma unha partida no biquini? Nem imaginas como o saco se mexe antes de submergir na água. E não fazes ideia de quão quieto está quando o retiro. E, acima de tudo, não te passa pela cabeça a quantidade de lágrimas que derramo por esses pobres animais. Ora faz um ano que te atiraste pela janela com vontade de morrer e agora banhas-te na piscina, as tetas para cima e para baixo como num carrossel e ris-te às gargalhadas expondo as gengivas e uma dentadura brutal. E eu desde a porra desse dia tenho de chorar e tenho de matar os gatos que incomodam os teus vizinhos, que te chateiam a ti, dois euros por gato, e às vezes apanho-os noutras piscinas mas afogo-os na tua, e assim também me pagam pelos gatos que não te incomodam. E no final consigo comer, comer. Mas só comerei em paz quando souber porque te atiraste da janela. Porque desejavas a morte? Porquê?

PRIMEIRO INTERROGATÓRIO
ENCONTRO NO PEEP-SHOW


Ofélia- (Ri às gargalhadas)
Horácio - Nem sabes os gatos que tenho de matar para poder falar contigo. Só tocar à campainha e chamar-te custa-me as quatro patas de um gatito preto. Assim, se fazes o favor, responde depressa. Que é isso de Ofélia? Ninguém se chama assim.
Ofélia. – Tenho boas razões para me chamar Ofélia.
Horácio. – Se a ti te chamam Ofélia então eu passo a chamar-me Horácio.
Ofélia.- Horácio! Isso é o que chamam aos jokers.
Horácio. – É um bom nome para falar com outro joker. Com outra sombra.
Ofélia. – Enganas-te. Aqui a luz é toda minha. Tu é que estás às escuras. Os que pagam estão sempre às escuras. Andam a tactear, fintando as trevas, procurando alguma coisa que responda às suas questões. Alguma coisa que os encha de felicidade.
Horácio. – E eu pergunto-te: porque trabalhas aqui?
Ofélia. – Curto isto.
Horácio. – Gostas?
Ofélia. – Gosto.
Horácio. – Já vi mulheres a vomitar depois de trabalharem.
Ofélia. – Eu não vomito.
Horácio. – Nunca vomitaste nem uma única vez?
Ofélia. – Não.
Horácio. -Nunca odiaste o teu patrão?
Ofélia. – Não.
Horácio. – Nunca odiaste os homens?
Ofélia. – Não.
Horácio. – Nunca odiaste este cheiro? Este cheiro insuportável?
Ofélia. – Não. (Ri-se)
Horácio. – Gostas.
Ofélia. – Gosto. É a minha oportunidade. Nunca tive boas tiradas. Roubaram-me o papel. Nem sequer morro em palco.
Horácio. - Não me fales de Ofélia!
Ofélia. – Este é o teatro de Ofélia. Todas as palavras são de Ofélia. Todas as carcelas, todo o refugo, todo o amor.
Horácio. – Todas as mentiras.
Ofélia. – Todos os loucos. Pede-me.
Horácio. – O teu passado. Quero a tua biografia.
Ofélia. – Para cima e para baixo, mexe a tua mão direita.
Horácio. – Não sei se amas os animais. Mas se pudesse meter o saco pela ranhura, saberias qual o teu preço. Dois gatos, dois gatos entregam a sua alma por causa da tua incompetência.
Ofélia. – Não consigo falar mais depressa.
Horácio. – O teu passado!
Ofélia. – Um pai, uma mãe, um colégio, um noivo aos quinze, um pó aos dezoito... (Ri)
Horácio. – De que te ris?
Ofélia. – Os gatos... É uma piada?
Horácio. – Esta madrugada quando voltares para casa espreita para a piscina. Vou lá deixar um gato a flutuar.
Ofélia. – Cala-te, que horror... Porque fazes isso?
Horácio. – Já começas a ouvir. Já começas a entender. E se fosse necessário para que entendesses melhor, para além de não passar fome, em vez de gatos, tirava os bebés dos seus berços e pendurá-los-ia ao cinto como um punhado de perdizes.
Ofélia. – Bem, tu pagas, tu espreitas, tu insultas, tu amas. Quando saíres desta cabine escuríssima, digas o que disseres, terás razão.
Horácio. – Por hoje chega. Umas moedas para jantar. Não há necessidade de passar fome. Não há necessidade de passar fome. Ah! Só mais uma moeda. Um animalzinho recém-nascido para que, quando vires um sem-abrigo na rua, empapado no seu mijo e no de outros, com a pixota ao ar, vomitando moncos, pensa, pensa apenas, que não nasceu assim.
Ofélia. - Masturbaste-te? Horácio, masturbaste-te?

HORÁCIO
Faço-o por dinheiro. Apenas por dinheiro. Porque sou pobre, estou doente, a minha casa é escura e húmida e não tenho quase nada para comer. Só tenho água fria e partilho o colchão com insectos corredores e no inverno é inverno a todas as horas. Enfim, os pobres. Nunca ouviste falar dos pobres coitados? Observo a tua alegria, a tua gargalhada de égua, o teu esquecimento, como se nunca tivesses querido morrer, como se nunca te tivesses atirado pela janela, como se não existisse a dor, a minha dor. E pensar que antes eu também me ria. Antes, antes, antes... Antes de te salvar. Antes dos teus quilos me partirem os ossos. Porque é que não te atiraste outra vez? Era assim tão periclitante a tua determinação? A janela, a janela... (desenha uma janela imaginária no ar). Não vai ser sempre que os braços de um homem disposto a tudo te apararão. Não vais encontrar sempre um esqueleto disposto a destroçar-se para que tu recuperes a vontade de viver. Ah! Amargura-me o teu capricho. Esperei dia após dia, com paciência de coluna, que voltasses a tentar, persegui no teu rosto um traço de angústia, um franzir atormentado, a mó do infortúnio. É. A tua plenitude é um escárnio para a minha invalidez. Nada em ti justifica o meu corpo estragado, o meu sacrifício ou a minha penúria. Nada. Ou seja, os teus motivos não eram assim tão importantes, podias ter prescindido da janela, não há nada no mundo assim tão importante, tanto fazia, morrer ou não, havia um pobre idiota em baixo, mais um que estava a passar, um que não podia viver sem coluna vertebral, um qualquer, um imbecil que estendeu os braços em berço para te salvar. E agora, com esta carapaça, continuo a perguntar-me: Porque te atiraste da janela? Porque desejavas a morte? Pelo menos preciso de saber isso para não te chatear tanto.

OFÉLIA
E o homem dos braços fortes aparou-me. Suponho que era um homem, digo suponho porque não lhe vi a cara. A vergonha ofuscou-me. Sem cuequinhas, sem cuequinhas! De um quinto andar e sem cuequinhas, que vergonha! Soltar uma risada e deitar a correr. Que outra coisa podia fazer? Não se pode contar isto a ninguém. A ninguém. Só depois pensei em milagres, tinha sido um milagre, nenhum osso partido, nem sequer um arranhão, como se costuma dizer, e pensei no homem dos braços fortes, que ficou às escuras, envolto em trevas, porque não lhe vi a cara, tal como a ti que também não vejo, às escuras. Continua a ver. Continua a espreitar. Dou-te tanto por tão pouco. Dou-te um corpo recém-nascido. A pele. Há alguma coisa de mais inocente, mais limpa, mais indefesa que a pele? Na minha pele começo e na minha pele acabo. Não perderás a honra. Aproveita. A escuridão protege-te, bendiz-te, agiganta-te, faz-te bom, proporciona-te o valor suficiente para me ultrajares. Dessa escuridão que compras acreditas que és melhor que eu. Mas eu estou viva! Viva!, enquanto tu apenas olhas.

SEGUNDO INTERROGATÓRIO
ENCONTRO NO PEEP-SHOW

Ofélia. - (Rí às gargalhadas)
Horácio. – Como podes rir assim? Como podes ser tão idiota? A tua estridência põe-me doente. Revolve-me o estômago.
Ofélia. - Para o convento! Para o convento¡ (Volta a rir)
Horácio. – Que barbaridade! Que gula! Queres apoderar-te de todas as frases. Força comilona! Que se passou com a tua falta de apetite?
Ofélia. – Tu, Horácio, também terias gostado de ser mais que um mero ouvinte. Agora que os protagonistas nos abandonaram tens uma oportunidade. Fala.
Horácio. – Cada um com os seus complexos. Pelo que estou a ver deste um pontapé na tristeza.
Ofélia. – Para o diabo com o príncipe. No final Horácio e Ofélia encontraram-se e falaram das suas coisas.
Horácio. – A que preço?
Ofélia. – Ao preço que eu estabeleço.
Horácio. – Viste o gato a flutuar na piscina?
Ofélia. – Não fui espreitar.
Horácio. – Ingrata. Perdi três pratos quentes ao deixar o gato na água. Ingrata. Ingrata.
Ofélia. – Quando é que começas?
Horácio. – Começar?
Ofélia. – A masturbar-te. Estás a masturbar-te?
Horácio. – É a única coisa que te interessa?
Ofélia. – É o orgulho do meu trabalho. Do meu corpo.
Horácio. – O meu corpo, o meu corpo, o meu corpo... No fim a Horácio e a Ofélia cresceu-lhes o corpo como se fosse uma planta que nos semeiam no nome. Gostarias de ver como cresceu o meu?
Ofélia. – Se não te masturbas obrigas-me a pedir-te mais dinheiro. O tempo está a passar.
Horácio. – Mais animais mortos só para falar?
Ofélia. – Falar é o mais perigoso.
Horácio. – Então, já que te pago para falar, hoje fico sem comer só para falar contigo. Se achas que por falar estamos em perigo, então terás que correr algum risco.
Ofélia. – Haverá alguma coisa mais inocente, mais limpa, mais indefesa que a pele?
Horácio. – Tens que responder às minhas perguntas.
Ofélia. – Vai comer Horácio, come.
Horácio. – Não pode ser. Já está. Já está. Já caíram as moedas. Pagar por enjaular alguém. Pagar para que permaneças presa nesse caixote ridículo. Se não parasse de meter moedas poderia ter-te aí, capturada, para sempre.
Ofélia. – Seria tua esposa.
Horácio. – Minha escrava.
Ofélia. – E eu pedir-te-ia mais do que podes pagar. E o escravo serias tu.
Horácio. – Escravos ambos.
Ofélia. – Tu pagas, tu vês, tu insultas, tu amas, tu ficas sem comer. Sou uma boa Ofélia, um engodo sem vontade.
Horácio. – Tu não gostas de olhar?
Ofélia. – Aqui a luz é toda minha.
Horácio. – Garanto-te que ninguém consegue passar ao meu lado sem me olhar.
Ofélia. – Somos parecidos?
Horácio. – Nunca olhaste para trás, para um lado e para o outro, para ver, para ver quem está próximo de ti?
Ofélia. – Eu não olho porque não tenho medo de nada. Consigo viver sem olhar.
Horácio. – Alguém te avisou: teme, Ofélia, teme, a grande segurança reside no temor.
Ofélia. – Tornei-me valente.
Horácio. – Que se passou contigo?
Ofélia. – Ninguém sabe (Rí às gargalhadas)

HORÁCIO
(Parodiando a Ofélia de Hamlet) E eu, a mais desconsolada e miserável das mulheres, que provei um dia o mel de vossas promessas, Oh, doce príncipe, vejo agora tal nobre e sublime entendimento desafinado. Oh, quanta, quanta, quanta é a minha desgraça de ter visto o que vi para ver agora o que vejo. A janela! A janela! Que os coveiros preparem as suas ferramentas e os esqueletos o seu melhor baile. (Abandona a paródia) Ah! Onde estão as meninas douradas? Conservadas em pranto. Tiritando nos seus banheiros. Onde estão essas mandíbulas desesperadas? Onde? Onde estão aquelas meninas românticas, de olhos vesânicos, ao pé da tempestade, dispostas a serem tragadas pela natureza? Se pudesse oferecer-lhe um motivo para emendar o seu erro. Se conseguisse um sobressalto no seu rosto. Não de nojo, não de tédio, mas de melancolia. Se encontrasse uma maneira de pôr sombra no seu olhar. Um motivo, é preciso um motivo para que se verta à sua frente um profundo cansaço, o cansaço que nos produz a vida, nada mais que a vida. Se conseguisse que inclinasse o pescoço para o lado, assim, deixando cair a cabeça como se lhe tivessem colocado um lastro de incerteza e de tempo. Faz-lhe falta a realidade. Se pudesse fazê-la morrer no palco.

TERCEIRO INTERROGATÓRIO
ENCONTRO NO PEEP-SHOW

Ofélia. – Não, não, não, não é possível.
Horácio. – Está escrito. Por baixo da ranhura matacães ou matagatos. Diz se podemos chegar a um acordo.
Ofélia. – É demasiado caro. Não consegues pagar. Não há gatos suficientes na cidade.
Horácio. – Hoje roubei a minha primeira carteira.
Ofélia. – Posso pedir-te mais. Muito mais.
Horácio. – Então os gritos desse velho, as suas lágrimas espessas, o seu ataque, coitadinho, estatelado no chão só com um empurrão, que se arrastava como uma minhoca, reclamando a sua miserável pensão, esse velho, como dizia, arrastou-se em vão?
Ofélia. – Aqui nunca entraram os da parte escura.
Horácio. – És apenas uma boneca.
Ofélia. – Nunca vi os rostos do outro lado.
Horácio. – Esse velho ficou sem carteira por tua causa.
Ofélia. – A luz é minha.
Horácio. – Alguma vez terás que olhar.
Ofélia. – Porquê? Porque hei-de olhar? Não é o meu papel.
Horácio. – Se a luz é toda tua, usa-a nos teus olhos.
Ofélia. – (Tocando no púbis) Os meus olhos estão aqui.
Horácio. – Não desprezes os teus olhos.
Ofélia. Os meus olhos...
Horácio. – Lembras-te daquela cena, quando Horácio acompanha Ofélia aos seus aposentos?
Ofélia. – Essa cena não se vê.
Horácio. – Garanto-te que Horácio acompanhou Ofélia.
Ofélia. – Tu achas que Horácio e Ofélia...?
Horácio. – Vou entrar. (Horácio entra na cabina porno)

QUARTO INTERROGATÓRIO
OS DOIS DENTRO DA CABINA PORNO

Horácio. – (Tira recortes de jornal de um dos seus bolsos) Quinze homens assassinados à facada. Desastre de avião: trezentos mortos. Não há sobreviventes. Inundações provocam quinze mil mortos. Enterrados numa mina. Não há sobreviventes. Atentado terrorista com carro-bomba: treze mortos. Corpos irreconhecíveis. Mulher encontrada em estado avançado de decomposição. Carnificina suburbana. Quarenta crianças degoladas. Não há sobreviventes. Vala comum. Todos recém-nascidos. Queimou-os vivos. Chega?
Ofélia. – Horácio, masturba-te.
Horácio. – Chega para desejar a morte?
Ofélia. – Masturba-te, por favor.
Horácio. – O meu pai enamorou-se por outra mulher. Era uma mulher muito jovem e muito bonita. Fugiu com ela para outro país, um país longínquo e tão bonito como a sua amante. Então, a minha mãe, que também era bonita, fechou-se no quarto-de-banho e ficou de pé a ver-se ao espelho durante cinco horas seguidas. Depois meteu-se na cama com um frasco de amoníaco e bebeu-o. Vomitou uma semana inteira. Até que deitou o estômago pela boca. Tinha trinta e cinco anos e tinha a cara pintada com caneta. Tinha pintado as rugas. As rugas... Quatro, cinco, não mais. Tinha trinta e cinco anos mas morreu de velhice. Não de amor, não de cuidados. De velhice. Eu também tenho uma ruga, aqui, no pescoço, tão funda que há bichos que podem dormir dentro dela. Acabei de fazer trinta anos e pareço teu avô. Um dia acontecerá o mesmo contigo, não pedirás luz mas sim penumbra. E ninguém te voltará a olhar. Serás tu quem olhará, olhará e voltará a olhar a maciez, a pureza das caras novas. Só conseguirás pensar nas coisas que não fizeste. E nunca te voltarão a dar o papel de Ofélia, virgenzinha suicida. É o tempo, Ofélia, é o tempo.
Ofélia. – Horácio, masturba-te.
Horácio. – Aos trinta tens quarenta. Aos quarenta sentes-te como se tivesses cinquenta e cinco e aos cinquenta e cinco julgas que já estás morta.
Ofélia. – Vem-te depressa.
Horácio. – Há duas opções: enlouquecer ou trabalhar, envelhecer e morrer.
Ofélia. – Horácio...
Horácio. – Não sei porque me esforço a convencer-te. A única coisa a fazer é esperar.

Ofélia chora pela primeira vez e Horácio sai da cabina comovido, estranho, tremendo.

OFÉLIA
Olhos que não vêem... Olhos que não vêem... Ter visto o que vi. Para ver agora o que vejo. Esse homem. Esse homem... Quão eterna se torna a minha espera. Estou à espera dele. Realmente estou à espera dele. Ah! É tempo. É o tempo.

HORÁCIO
Onde ficou a vingança? Deslizou de repente pelo tobogã do seu pescoço, do seu pescoço oblíquo, do seu pescoço castigado pelo tempo, do seu precioso pescoço.

QUINTO INTERROGATÓRIO
ENCONTRO NO PEEP-SHOW

Ofélia.- Ontem vi uns vultos. Nas costas.
Horácio. – Devem ser as asas a crescer. O anjo da guarda abre caminho por entre as omoplatas.
Ofélia. – Dói-te?
Horácio. – Dói.
Ofélia. – Não metas mais moedas. Não afogues mais gatos.
Horácio. – E os que já morreram? Oxalá pudesse ressuscitar os gatos que morreram. E os que continuarão a morrer para ter de comer.
Ofélia. – Eu trabalharei para te dar de comer. Não me tocará a luz do dia para dar-te de comer. As moedas dos voyeurs serão para a tua comida. Qualquer posição, qualquer brutalidade, meterei no corpo tudo o que me pedirem, tudo desde que saiba que estás a comer. É uma dívida impagável. Impagável. Trago na cara o sinal dos patéticos juros de mora. Tão escandalosa é a fortuna que devo que me penhoraram as vértebras. Agora asfixio no gás de uma generosidade doentia. Deve ser o gás do amor. Não é por gratidão, é por culpa. Sinto-me totalmente culpada. Culpada da tua vida ortopédica. A minha obsessão consiste em dar-te tudo. Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... Transladar esta cabine para o teu quarto e para a tua latrina. Entregar-te a existência que preservaste com o teu esqueleto. Sinto-me totalmente culpada. Culpada, culpada, sim.
Horácio. – Que estás a dizer?
Ofélia. – Sei quem és.
Horácio. – (Levanta-se acobardado, tropeça e cai)
Ofélia. – Finalmente vi-te e olhei-te bem.
Horácio. – Tinha-me habituado à obscuridade.
Ofélia. – Porque não me disseste? Porque não me procuraste antes? Porque te calaste? Lamentas que eu te tenha visto? Lamentas que eu saiba quem tu és? Como querias que eu soubesse? Lamentas teres entrado na luz?
Horácio. – Alguma vez pensaste em mim? Como adivinhaste? Porque é que não me olhaste naquele dia? Lamentas ter-me visto? Lamentas saber quem eu sou?
Ofélia. – Não sei responder às tuas perguntas.
Horácio. – Eu também não sei responder às tuas.
Ofélia. – Por fim, estamos os dois sob o foco.
Horácio. – Com tanta luz tenho vergonha do meu tronco.
Ofélia. – E eu dos meus peitos. Horácio, não olhes para mim.
Horácio. – Não olho. Viro-te as costas.
Ofélia. – Estraguei as tuas costas.
Horácio. – Sonhei em insultar-te, em deixar-te tolhida, em ver-te morta, e agora não sei que dizer.
Ofélia. – (Começa a sangrar do nariz e emite um ligeiro queixume)
Horácio. –(Reage imediatamente dirigindo o seu olhar para a vidraça que os separa) Que se passa?
Ofélia. – Nada. O nariz. Está a sangrar.
Horácio. – Estás a sangrar.
Ofélia. – Não olhes para mim.
Horácio. – Não estou a olhar.
Ofélia. – Acontece. Dia sim dia não. É da cabeça. Dói-me. E o nariz a sangrar.
Horácio. – Dói e sangra.
Ofélia. – Calhava-me bem descansar.
Horácio. – Isso.
Ofélia. – Sentar-me um bocadinho.
Horácio. – Claro.
Ofélia. – São enjoos...
Horácio. – Estás enjoada.
Ofélia. – Horácio...
Horácio. – Sim?
Ofélia. – Se me deixasses...
Horácio. – Deixar-te?
Ofélia. – Descansar.
Horácio. – Ah! Com certeza.
Ofélia. – Adeus Horácio.
Horácio. – Adeus.
Ofélia. – Adeus.
Horácio. – Adeus.
Ofélia. – Adeus.
Horácio. – Adeus.
Ofélia. – Adeus.

HORÁCIO
Voltaria a por os braços! Voltaria a por os braços! Voltaria a por os braços! Meu Deus! Voltaria a pô-los! Voltaria a por os braços! (Aflora a ira) Voltaria a por as minhas costas para que ela as partisse. (Sorri) Olhou-me e converteu a coroa de louros em peregrino, em anis doce, em fumária e arruda. Ofélia, eu estancar-te-ei o sangue. Precisas de mim? Precisas de mim Ofélia? E se te cortar as pernas, ajudar-te-ei a andar. E se te cortar as mãos, pentear-te-ei. Se te cortar a língua, falarei por ti. E se te arrancar o coração... Precisas de mim, Ofélia, precisas de mim (Faz ternuras à boneca)

OFÉLIA
Os teus braços, Horácio, assistentes de príncipes moribundos, tão atirados já às últimas vontades e aos pânicos posteriores. Foram os teus braços que me devolveram ao trajecto vertiginoso. Os teus braços, almofada final. Os teus braços imanes da agonia. Que coisa me poderá devolver os teus braços que não seja a paixão pelas tumbas, pelos corvos e pelas paisagens escarpadas? Os teus braços, Horácio, preparados para recolher o fracasso dos nossos órgãos.

SEXTO INTERROGATÓRIO
ENCONTRO NO PEEP-SHOW

Horácio. – Já está.
Ofélia. – Masturbaste-te?
Horácio. – Sim. Até ao fim.
Ofélia. – Pensaste em mim?
Horácio. – Pensei muito em ti.
Ofélia. – Pensaste em mim...
Horácio. – Quero levar-te a ver isto. Quero que vejas. Tens que ver.
Ofélia. –Agora posso ver tudo, Horácio. Quero ver tudo.
Horácio. – Antes, deixa-me roubar uma frase. Aquela que sempre quis dizer. Aquela que sempre invejei.
Ofélia. – Rouba, rouba, estão todos mortos, ninguém se aperceberá.
Horácio. – É um juramento.
Ofélia. – Juremos.
Horácio. – (Pega-lhe na mão) Enquanto esta máquina existir.
Ofélia. – Enquanto esta máquina existir.

SÉTIMO DIÁLOGO
NO ARMAZÉM DE HORÁCIO

Horácio. – Flores para Ofélia! Onde é que já se viu uma Ofélia sem flores?
Ofélia. – Afinal mereço as flores!
Horácio. – Ofélia, de que vamos morrer?
Ofélia. – O meu avô morreu completamente amarelo. Rebentou-lhe algum saco por dentro e tingiu-lhe a pele.
Horácio. – Aquela coisa das veias que rebentam no cérebro e o encharcam.
Ofélia. – E o coração que pára, coberto por uma camada tão dura e tão gasta que não o deixa andar.
Horácio. – Vi morrer o meu tio. O peito soava como se tivesse serpentes num poço. E o ar não lhe entrava. Apesar de abrir a sua boca enorme, não entrava ar. Parecia um peixe fora de água.
Ofélia. – Tive uma vizinha que morreu de hemorragia, na cama. O sangue cheirava a podre, dava vontade de vomitar. Tínhamos que pôr um lenço com água de colónia na boca.
Horácio. – Qual será a pior morte, Ofélia?
Ofélia. – A do outro, a do outro. Não conseguiria suportar a morte do outro.
Horácio. – Tens medo da dor?
Ofélia. – Tenho, Horácio, tenho, tenho mais que nunca, tudo, tudo.
Horácio. – Quem morrerá primeiro?
Ofélia. – Eu, eu já devia estar morta. Como as outras.
Horácio. – As outras morreram por ti.
Ofélia. – Não. Todos levamos às costas o nosso próprio cadáver.
Horácio. – Queres mesmo morrer?
Ofélia. – Já devia estar morta. E estou nua porque não estou morta.
Horácio. – Para mim está bem assim, Ofélia.
Ofélia. – Não resistirei.
Horácio. – Eu resisti.
Ofélia. – Mas a mim...
Horácio. –Todos choram, todos.
Ofélia. – Mas a mim, como sabes, no fim enterram-me.
Horácio. – Tu não te chamas Ofélia.
Ofélia. – É verdade.
Horácio. – Como te chamas?
Ofélia. – Ana, Ana, apenas Ana.
Horácio. –Não vais acreditar mas eu chamo-me Horácio.
Ofélia. – Horácio...
Horácio. – Não quero pagar um preço tão elevado em troca do teu pescoço inclinado. Está bem assim. Já não te odeio, Ana, Ana...
Ofélia. – Sim. Chamo-me Ana.
Horácio. – As tuas flores não são flores de funeral.
Ofélia. – (Põe-se subitamente rígida, deita a mão ao nariz que começa a sangrar) Outra vez sangue.
Horácio. – Deixa-me... (Tenta ajudá-la)
Ofélia. – Outra vez...
Horácio. – Cabeça para trás.
Ofélia. – Está bem.
Horácio. – Cabeça para trás.
Ofélia. – Sim, sim.
Horácio. – Shiu... shiu (Tenta acalmá-la)
Ofélia. – Horácio!
Horácio. – (Alarmado) O que é? O que é?
Ofélia. – Não vejo, Horácio, não vejo! Não vejo!
Horácio. – Cega? Estás cega?
Ofélia. – Não vejo.
Horácio. – Eu serei os teus olhos, os teus olhos, Ana, Ana...

CONCLUSÃO
NO ARMAZÉM DE HORÁCIO

Horácio. – Preciso de saber uma coisa.
Ofélia. – Tudo o que quiseres. Devo-te tudo. Tu és os meus olhos.
Horácio. – Porque sofrias? Por quem? Porque é que te atiraste da janela abaixo? Porque desejavas a morte? Porquê?
Ofélia. – Mas eu, Horácio...
Horácio. – Diz.
Ofélia. –Eu não desejava a morte.
Horácio. – O quê?
Ofélia. – Eu não me atirei da janela.
Horácio. – Como?
Ofélia. – Eu não me atirei da janela.
Horácio. – Não te atiraste da janela?
Ofélia. – Não.
Horácio. – Então?
Ofélia. – Caí.

Silêncio

Horácio. – Caíste?
Ofélia. – Caí. Escorreguei e caí. Como a Ofélia, da árvore. Mas não me chamo Ofélia.

Silêncio

Horácio. – (Chorando) Agora não cairás, não se partirá um ramo por mero acaso, não terás um vestido para flutuares que, completamente encharcado, te leve para o fundo, por mero acidente, enquanto cantas. Não. Agora serás tu a preparar o salto, a preparadora do salto, não é?
Ofélia. – O resto é silêncio.
Horácio. – Essa frase é minha.
Ofélia. – Essa piscina é minha.
Horácio.. – (Dirigindo-se ao público) E vocês? Estão a olhar para onde? O vosso tempo acabou. Já não tendes mais moedas. Fora daqui. Deixem-nos sós!