20 janeiro 2003

angelica liddell - Dolorosa

Dolorosa

-1-

A PUTA. - Tornei-me puta para não dormir sozinha. A minha angústia sai muito cara aos homens. Pagam porque sabem que os amo com loucura e que estaria disposta a morrer por cada um deles. Sabem que estou sempre pronta a matar-me. Telefonam no dia seguinte para terem a certeza disso, mas ao ouvirem a minha voz pagam mais outra noite com a moribunda. Digo-lhes: gosto muito de ti. Gosto muito de ti. E de novo se afundam furiosamente na agonia e na obsessão. Depois durmo como se me enchessem pouco a pouco de água morna. Eles ficam ali a ver se quero mesmo morrer e se morro. Desde que me tornei puta posso sonhar que tenho uma mancha amarela e quente na nuca: é o sol, é um sonho magnífico. Dantes não sonhava. Desde que me tornei puta agrada-me o inverno porque as noites são maiores e assim rebento de amor durante mais horas e mais sóis me aquecem a nuca. Oferecem-me facas, tesouras, espadas, cordões de seda, vidros partidos, serpentes. Os presentes já me chegam aos joelhos. É impossível alguém entrar no meu quarto sem se ferir com algum corte ou algum veneno. Mesmo assim não deixam de entrar. E eu apaixono-me. Acho que sou rica. Se o fizesse de borla ninguém se importaria com a minha paixão ou com a minha vida. E dormiria muito sozinha. Até que me fiz puta com a velocidade de quem corre para a retrete retendo o a urina. Não sou bela. Desde que me tornei puta pagam para me ver enquanto sofro, converti-me na mulher mais bela do mundo. Não é que a dor me embeleze. Aquele que paga é que me recebe mais deslumbrante. Assim, consigo viver sem espírito, sem impacientar-me para obter a salvação. Eu sou a salvação. Digo-lhes: Gosto muito de ti. Gosto muito de ti. E eles masturbam-se como num ataque, avivando a brasa que aquece a espuma da torrente. Começa o fervor e uma dentada no ventre arqueia-os. Quebram as costas para injectar no ar jorros infinitos, que se encaracolam, que inundam tudo até terem que nadar em tanta abundância, tanta como o esbanjamento da sua fortuna. A minha dor é o mais caro que há. A minha amargura a mais valiosa. A minha dilaceração um luxo.

-2-

O HOMEM. (tremendo de aflição, atirando o seu dinheiro para o espaço aéreo da puta) - O mundo está a acabar. Gostaria de ter vivido quando ainda se podia optar entre Deus e o Diabo. O destino não me serve. Só tu. O mundo está a acabar. O mundo é apenas o meu corpo doente. Os holocaustos os meus vómitos. As catástrofes as minhas veias rotas. Apodreço como a água de um charco cheia de bichos mortos. O mundo está a acabar e eu desejo violar-te. Penetrar-te como uma besta até que seja uma bola de sangue o que penetro. Pago o que pedires.

A PUTA. - Gosto muito de ti.
O HOMEM. - Continua. Posso arruinar-me.
A PUTA. - Gosto e gostarei sempre muito de ti.
O HOMEM. (Acaricia-a, beija-a, cheira-a, lambe-a, morde-a) - Não mereço, não mereço.
A PUTA. - Se amasse os que amam, que mérito teria?

(Ouve-se uma porta a bater)

A PUTA. (para a porta) - Adeus.
O HOMEM. - Quem é?
A PUTA. - Eu posso morrer de amor por todos os homens
O HOMEM. - Só por mim.
A PUTA. - Jamais amarei outro.
O HOMEM. - Jura.
A PUTA. - Juro. Juro que jamais amarei outro.
O HOMEM. - Repete.
A PUTA. - Juro que jamais amarei outro.
O HOMEM. - Mais.
A PUTA. - Juro-te.
O HOMEM. - Por quem juras?
A PUTA. - Pela tua cara, pelos teus olhos, pela tua boca, pelo teu alento.
O HOMEM. - Depois morres?
A PUTA. - Sim.
O HOMEM. - Morres.
A PUTA. - Sim, meu amor.
O HOMEM. - Uma prova.
A PUTA. - Não és capaz de interpretar os sinais dos tempos?
O HOMEM. - Arrastei até aqui o meu sangue doente! Paguei!
A PUTA. - E apesar de tudo gosto muito de ti

O HOMEM. (mete-se debaixo da combinação da puta e dá-lhe prazer)

A PUTA. - Se partires, encho-me de varandas para te esperar. E em cada uma prendo uma grinalda de flores que receberá o teu regresso com o seu perfume. Mesmo que a terra estremeça não entrarei em casa. Mesmo que chova e neve não taparei o meu corpo nu. Tal como a proa de um barco contra a tempestade assim será o desejo de te voltar a ver. Assomarei a minha solidão à varanda e chorarei até te ver aparecer ao longe. Se me abandonas, morro (Chora)

O HOMEM. (Sai de baixo da combinação. Acende um cigarro de papel)

A PUTA. - (Atira-se ao chão)

(Chora)

(Só se ouve o seu chôro)

(Chora, chora, chora, chora)


O HOMEM. - Deixá-lo! Que chore. Que morra. Que morra de amor. Só ela. Que chore. Chora, chora por minha culpa. A minha epidemia merece algumas lágrimas. O mundo agradecer-te-á. O mundo que não é outra coisa senão a minha carteira e o meu fígado. Isso, assim, muito bem. Morre. Pouco a pouco. Não sou egoista. Sou um homem. A maldita descoberta converteu-nos para sempre em homens. Tivesse eu ficado com Deus e queimado os hereges. Idiotas. Chora, chora, não pares de chorar. Já sei que estou doido. Gosto de estar doido. Costumo ficar doido duas vezes por semana. De preferência às sextas e aos sábados. Quando estou doido sou capaz de ficar a dormir até às cinco da tarde. Ao acordar bato com os punhos na cabeça ou na madeira da cama. Enquanto faço isso não penso. Não sinto. Nem sequer dou conta que não penso ou não sinto. Sinceramente não penso, não sinto. Concentro-me apenas na percepção da dor. Do barulho da dor. Do barulho da minha mão contra a dor. É fascinante esse intervalo de ausência total de sensibilidade. Como um quarto esférico de dois metros de diâmetro completamente branco. É a ausência de esquinas, de chão, de tecto, de portas, janelas, cores, formas, perspectiva, horizonte. É um descanso. Se não continuo é apenas por aborrecimento e não porque seja insuportável. Aborreço-me muito depressa com tudo o que faço. Depois recolho-me nessa horrível caïmbra eléctrica que se produz ao puxar os cabelos. Puxo-os com violência até notar como se humedecem os meus olhos e, no preciso instante em que começa a rolar uma lágrima pela minha face, arranco-os brutalmente num último e definitivo impulso. E a minha mão fica cheia de cabelos. Quando abro a porta parece que levo um animalzinho estrangulado. O mais importante deste exercício corporal são as lágrimas. Lágrimas vazias de conteúdo. Lágrimas fisiologicamente puras ou puramente fisiológicas. Não como as tuas. Continua a chorar. O meu método é bom para controlar a produção de chôro a meu capricho, prescindindo da pena, da angústia, da raiva, do ódio, do amor e do medo. Resumindo: prescindindo do fim do mundo. E dessa alma maldita que não existe e que me obrigaram a carregar. Exigem-me uma alma por livro. Quem me dera que esse etéreo divino não fosse uma invenção. Algemaram-me à força. Agora não se queixem das minhas obras. Nos dias em que estou doido não como nem sequer mijo. Se tenho muita vontade resolvo isso o mais rapidamente possível para voltar a internar-me no meu templo e desfrutar inteiramente a minha patologia. Haverá alguma coisa mais divertida que um cérebro infectado? Posso destruir a humanidade com um só golpe de tinta ou de tecla. Sou um criador! Creatio ex nihilo! Entendem agora a minha vocação seus porcos? Compreendem a minha desgraça? O mundo está a acabar e eu não escolhi a palavra correcta. Escolho, entre uma frase e outra, um nome, um princípio, um fim, o meu ofício consiste em escolher palavras e, apesar das horas e dos anos, acabo sempre por ficar com a pior, com a mais defeituosa sabendo que essa pode ser a última palavra, a palavra com que me enterrarão, a palavra que todos rezarão ao pé da tumba. Sou um mendigo de mim próprio. Só procuro no lixo. Não sentes o fedor dos desperdícios? Que estranho. Tenho os bolsos completamente cheios. Nunca tiro nada. Como os voltaria a encher? Com estes dias brancos como o mármore da morgue? Sou o único barro que me atrevo a usar, tirando a lama. Sou um cobarde. Não penses que optei pelo caminho mais fácil. É que não sei como ser melhor. Estou condenado a repetir sempre a mesma história. Impossível fazer falar um bêbedo se não foi com palavras que escrevi uma carta à minha amante. Sou um vigarista que sulca as suas entranhas tentando disfarçar a sua falta absoluta de talento. O herói duma façanha patética. E às vezes tenho prazer com isso porque não tenho mais nada para fazer. De cada vez que publico um livro pego na tesoura e recorto algumas páginas para ver se sai sangue ou algo assim. Depois atiro-o para o caixote de lixo e fico a vê-lo ali rodeado de latas vazias, cascas, compressas... Pelo menos deram-me a oportunidade de sonhar que fazia algo de belo. Hoje em dia a única coisa que conta é o ponto de vista dos sonhos. Oxalá pudesse destruir os meus livros. Empenham-se em conservar as coisas dos mortos e chamam-lhes almas. Precisam de um simulacro de eternidade. E conservam-nas cada vez mais e melhor porque o fim do mundo está cada vez mais próximo, porque o meu corpo parece-se cada vez mais com um pântano fétido, cada vez mais, cada vez mais. A alma não existe. Apenas corpos que apodrecem. Se queimasse os meus livros numa praça pública e me enforcasse junto à fogueira, compreenderiam finalmente? Para o moribundo a única coisa que existe é a fabricação do cadáver. Morrer é absurdo se não é possível voltar a estar vivo. As sextas e os sábados são os dias mais divertidos da semana. Internar-me-ão numa sexta ou num sábado. Irmãos meus, quanto anseio estar já ao vosso lado. Como desejo que me contamineis com cada uma das vossas benditas infecções. Invejo-vos. Ambiciono todas as loucuras. Vocês ajudar-me-ão a desterrar esta lucidez intermitente de que ainda padeço. Jamais regressarei à minha casa, à minha mulher, aos meus filhos. Que casa? Mulher? Filhos? Atar-me-ei ao cano da retrete da minha cela. O meu mundo é o mundo dos loucos. Dormiste? Ou morreste? Talvez aproveites o sonho para morrer. Para sonhar comigo. Deixá-lo! que sonhe, que sonhe. Há semanas que não durmo. O sonho parece-se demasiado com a morte. Esperarei. Aconselho-te que morras. O mundo está a acabar. Tens que o fazer. Não gostaria que voltasses a abrir os olhos. Disseram-me que havia uma puta que estava disposta a morrer de amor por mim. Isso é o que se parece mais com a ideia que tinha de Deus quando era pequeno. Nessa altura não havia dinheiro na carteira mas havia um livro de orações com capa branca e letras de ouro. Depois de matar o cãozinho rezei. Perdoas-me, não perdoas? A puta perdoa-me porque me ama. Tenho dinheiro suficiente para que ela morra de amor. Morre, morre. Os meus gérmens podem esperar uns minutos. O meu sexo conservará o seu estouro até ao fim.

A PUTA. - (Acorda)

O HOMEM.

(Rasga-lhe as vestes, magoa-a)

(Dá-lhe uma pistola) - Toma, guarda.

(Afasta-se, vai-se embora)

-3-

A PUTA. - Há os que vêm com as mães, as filhas ou as amantes. O embaixador vem com a esposa. Nunca entram no meu quarto. Ficam do outro lado da porta. Contraio-me para ouvir melhor os ruídos e sofrer mais. O embaixador pretende lembrar-me que tenho de padecer da disciplina que o inalcançável impõe à apaixonada: morrer depressa. Começa a falar de amor à sua mulher. Sabe que não é preciso elevar a voz para que eu tenha vontade de me matar. Um sussurro basta para me furar os ouvidos. O embaixador, não tarda nada, vai abrir as pernas a essa... O embaixador sabe que odeio a sua esposa. Uma mulher apaixonada tem direito a que a outra mulher lhe doa como uma gangrena. Tem direito a insultar e a cuspir. Uma mulher apaixonada tem direito a crucificar-se e a condenar os malditos. O embaixador e a esposa fornicam que nem cães. Recebo os seus primeiros gemidos com um espasmo. A minha cara começa a desordenar-se. Já que não lhe posso espetar uma faca no coração cravo-a no próprio juízo. Fazem muito barulho. Mesmo que tentem dissimular eu oiço tudo. Mas oiço como se estivesse debaixo de água, a dois mil metros de profundidade, meia amassada, afogando-me, com o crânio prestes a partir-se em pedaços. Ao embaixador multiplica-se-lhe a potência intuindo o meu desastre. Meto os lençóis na boca até deslocar a mandíbula. Ele não pode ouvir os meus uivos. Tenho que o excitar com o meu silêncio que ele julgará como silêncio de cadáver. Se chegasse a ouvir-me, pagaria menos. E continuo sacudida por violentas convulsões até que finalmente o meu corpo se abre e se derrama em fezes e urina. Acabada a sua actuação, o embaixador entra no meu quarto e comprova o massacre. Aproxima-se para ver se mesmo assim ainda tenho algum tremor no peito. Ambos percebemos o quão difícil é morrer ainda que seja de amor.

-4-

O HOMEM. - Quem esteve aqui?
A PUTA. - O embaixador.
O HOMEM. - (Cobre-a de dinheiro)
A PUTA. - Gosto muito de ti.
O HOMEM. - (Passeia)

(Tira-lhe um cabelo do ombro)

O que te apaixona mais?

A PUTA. - Que me alimentem como a uma criança
O HOMEM. (Alimenta-a)
A PUTA. (Queima-se com o primeiro pedaço)
O HOMEM. (Sopra rapidamente no alimento. Prova-o) - Agora.
A PUTA. - Meu amor.
O HOMEM. - Gostas?
A PUTA. - Muito.
O HOMEM. - Bebe. Não, tira as mãos. Eu dou-to. Assim, devagarinho.
A PUTA. - Meu amor
O HOMEM. - Queres beber mais?
A PUTA. (Diz que sim com a cabeça)
O HOMEM. - Aqui está. Muito bem.
A PUTA. - Meu amor, meu amor...
O HOMEM- Morres??
A PUTA- Sim
O HOMEM- (Limpa-lhe os lábios)
A PUTA. - Meu amor... (Come com sofreguidão. Engasga-se)
O HOMEM. - Devagar, devagar...
A PUTA. - Quero que saibas. Pedi-lhe que me arrastasse pelos cabelos pela casa, que me torcesse os braços, não porque o castigo me desse prazer mas porque eu precisava. Ele não queria. Então eu magoava-o a ele. Ele chateava-se e atava-me e amordaçava-me sem intenção de me satisfazer, apenas para que o deixasse em paz. Também lhe pedi que me sodomizasse. Disso gostava ele, até corria. Eu também gostava porque me magoava, porque o sentia mais, porque ouvia o barulho do seu sémen subindo-me pelas veias, pelo orgasmo frustrado, pela diarreia do dia seguinte. Recordo um ou dois sonhos que de certeza sonhei acordada: ele expulsava-me, encerrava-me num quarto sem luz ou lançava-me para a rua em plena noite de inverno, nua. Eu só conseguia chorar. E ele gozava. Não nos sonhos, não. Gozava e dizia: és encantadora.
O HOMEM. - És encantadora.
A PUTA. - Morrerei.
O HOMEM. - Aproveitarei este limite da tua desgraça para me arruinar. Violar-te-ei com o mesmo desespero com que salvaria a minha vida se ficasse pendurado de um arranha-céus pelas unhas. (mostra-lhe as unhas) estás a vê-las?
A PUTA. - E eu enlouquecerei de amor quando o sangue rebentar nas minhas veias e se misturar com o teu sémen colérico.
O HOMEM. - Tão brutal será o assalto que até o meu sexo aparecerá untado de sangue. Fiz-te sangue. Confio numa ferida que te esvazie. Admirarei a tua vida convertida num charco.
A PUTA. - Tenho que estrangular os mamilos para resistir à paixão. A loucura enreda-me o cérebro como se os cabelos me tivessem crescido para dentro.
O HOMEM. - Ir-me-ei embora deixando um odor a festa vomitada e a pão molhado.
A PUTA. - Morrerei.


-5-

(Entra um indivíduo com a naturalidade de quem entra em sua própria casa. Vê o homem abraçado à puta. O homem e o recém-chegado olham-se solidificando o ar. A puta não olha. O tempo decorre entre os olhares. Por fim, o outro pega numa maçã e sai sem pressa)

-6-

O HOMEM. (Disfarça a puta de morta. Cruza-lhe as mãos sobre o peito. Cobre-a de flores. A pistola faz as vezes de crucifixo.) - Já estás morta.

(Silêncio)

Podia ter chegado a gostar de ti mas tinha que salvar-me. Até teria sido capaz de morrer por ti se não tivesse pago tanto.

(Silêncio)

Já estás morta. E o mundo de novo em ordem. Completo. Feliz. O mundo que não é outra coisa senão os meus sonhos.

(Silêncio)

Durante a noite sentava-se no meu peito. Era uma criatura infernal. Sentia a garganta blindada pelo terror. Estava sozinho com esse monstro que me afundava os ossos e me obrigava a engolir punhados de agulhas. Sentia-as correr por todo o corpo, atravessando-o, fazendo um ruído como se estivessem a riscar cristal, até aparecerem nos braços, nas pernas, no ventre... Nasciam-me centenas de agulhas como se o meu corpo fosse um criador de medo.

(Silêncio)

(Acaricia-lhe uma mão e aperta-a espantado com a sua frieza) - Estás morta?

(Silêncio)

Sim, claro. Eu disfarcei-te de morta. Morta de amor.

(Silêncio)

Os meus filhos estão na banheira. Ela no chão do salão. Todos mortos.

(Silêncio)

Disparei. Sim, disparei. Não é mais difícil que lavar os dentes. Não há violência. A violência é um parasita da razão e eu abandonei a razão quando as minhas vísceras começaram a desfazer-se como areia, quando me converti em corpo, quando fiquei sozinho com o pânico enquistado nas costas, quando os médicos me sentenciaram sem me olharem nos olhos. Incurável. Incurável.

(Silêncio)

As crianças não gritaram. Apenas um gemido, um pequeno estremecer.

(Silêncio)

Após os disparos, uma espécie de surdez, como se me tivessem encapsulado os ouvidos. Mas a culpa não funcionou. Não pendurei a corda. Apesar do sangue. Só o medo de morrer. Só o meu cancro.

(Silêncio)

Se alguém me perguntar porquê...

(Silêncio)

Pelo céu. Má altura para explicar. Pelo céu, tudo pelo céu. Já te tinha dito, o mundo está-se a acabar e a única coisa que conta é o ponto de vista dos sonhos. (Acaricia os cabelos e a testa da puta. Está gelada. Tira as mãos. A puta morreu. O homem estremece) Tão fria.

(Silêncio)

Tão rápido.

(Silêncio)

E sem um beijo.

(Silêncio)

Não merecia tanto amor, ou merecia?

(Silêncio)

E agora? (Deambula aturdido) E agora? (Despe-se reunindo a roupa e outros objectos num monte. Vomita uma ameaça de chôro. Tira umas notas de um bolso e com um isqueiro pega-lhes fogo para incendiar tudo. Enquanto a pequena fogueira cresce, chega-se junto da puta e abraça-a como se se tivesse convertido numa criança)

A PUTA. (Imóvel enquanto fala) - Porque te abraças aos mortos?
O HOMEM. (Imóvel enquanto fala) - Para estar mais perto dos anjos.
A PUTA. - O teu dinheiro converteu-me num anjo. Agora poderei amar-te eternamente.
O HOMEM. - E eternamente serei corpo.
A PUTA. - Dói-te?
O HOMEM. - Já não. Os castelos deixaram de desfazer-se. O sangue voltou a ser claro.
A PUTA. - Como teria podido viver sem ti?
O HOMEM - Não continues, não tenho dinheiro para mais amor. Queimei-o todo. Bastará recordar o teu corpo gelado. Se queres podes desprezar-me.
A PUTA. - Estou morta. Abre-me os olhos e verás ainda o último reflexo intacto.
O HOMEM. - Mereço-o.
A PUTA. - Não desprezarei o meu irmão, a minha irmã e a minha mãe.
O HOMEM. - Posso ficar?
A PUTA. - E o mundo?
O HOMEM. - A teus pés.
A PUTA. - Tremes?
O HOMEM. - Preciso.
A PUTA. - Vamos!
O HOMEM. - Aonde? Não corras!
A PUTA. - Que os mortos enterrem os seus mortos!
O HOMEM. - Pára!
A PUTA. - Depressa!
O HOMEM. - Espera!
A PUTA. - Vamos!
O HOMEM. - Não consigo, não consigo.
A PUTA. - Olha!
O HOMEM.- O quê?
A PUTA. -Ali, ali, ali!
O HOMEM. - Não corras, não vás, não me deixes!
A PUTA. (A gargalhada da puta, arrepiante pelo seu brilho)
O HOMEM. (O grito do homem, inchado de velocidade)

(Muito silêncio)

O HOMEM. (Reaparece como se nada tivesse sucedido. Remexe as cinzas da fogueira. Quando se volta a puta ressuscitou)
A PUTA. (Olha-o e sorri, ressuscitada)

(Silêncio)

O HOMEM. (Dirige-se a ela e recupera a pistola que lhe entregou)

-7-

A PUTA. - Entra um jovem, quase um menino. Soube que há uma puta que o ama com loucura e que vai morrer por ele. Traz uma rosa branca e eu de propósito cravo em mim uma espinha para que não lhe restem dúvidas sobre o meu amor. Explica-me que a rosa só exala o seu extraordinário perfume depois de morta, ao amanhecer, quando morrem os executados. Perante a sua incredulidade decido penetrar o meu sexo com o talo da rosa e digo-lhe que gosto muito dele. Gosto muito de ti. Paga e vai embora. Sabe que morrerei pela sua pele de recém-nascido. Tiro o talo da flor e com ele um pedaço ensanguentado do meu corpo. Olho-me ao espelho. Já me saíram úlceras nos olhos. Estão inflamados, avermelhados, cobertos por uma grossa lâmina de caspa amarela. Doem-me. Demasiado belo esse menino para ver tão perto. Volta a entrar. Traz muito dinheiro. Paga atirando-o para cima, para que chova, para que seja bonito. Senta-se e olha-me. Quer saber se ele também é capaz de se degolar por mim. Olha-me. Pinta-me um coração partido no peito esquerdo. Mexe a língua na minha boca. Olha-me. Morde-me o colo. Desenha-me lágrimas azuis nas bochechas. Olha-me. Pede-me que chore. Todos pedem. Mas agora tenho de chorar muito porque é como se tivesse o sol ao lado, cegando-me. Digo-lhe: juro que te amarei sempre. Amar-te-ei sempre. O menino espera que se me acabe o chôro e dá-me um beijo feliz pelo juramento. Olha-me. Vai para um canto e desenha-se morto. Desenha como se tivesse seis anos. Encerrou-se dentro de um ataúde. Vestiu-se com uma túnica que deixa as suas costelas transparentes. Cruzou as mãos sobre o ventre. A sua boca é um sinistro esgar de tristeza e o seu cenho é grave. Quando me mostra o desenho caio desmaiada. Ele percebe que a minha desventura é atroz. Assoma à janela e cai.

-8-

O HOMEM. - Vi-o.
A PUTA. - Estava bonito?
O HOMEM.- Não sei. Estava morto.
A PUTA. - Devia devolver-lhe o dinheiro
O HOMEM. - Já vais tarde.
A PUTA. - O seu corpo de menino gigante, os seus olhos transparentes, a sua tristeza, a sua imensa doçura... Estava a sorrir?
O HOMEM. - Não sei. Não sei nada.
A PUTA. - Como é que agora saberá que vou morrer pelo seu sorriso?
O HOMEM. - Não.

(Silêncio)

A PUTA. - Sim. Morrerei.
O HOMEM. - Não.
A PUTA. - Gosto muito de ti.
O HOMEM. - Não entrarão aqui mais homens.
A PUTA. - Gosto tanto deles.
O HOMEM. - Já chega.
A PUTA. - Tanto...
O HOMEM. - Serás só minha.
A PUTA. - Tanto, tanto...
O HOMEM. - Já chega!
A PUTA. - Para mim não chega. Para ti chega? Meu amor.
O HOMEM. - Não sei!
A PUTA. - Se me abandonas morro.
O HOMEM. - Basta!
A PUTA. - Morrerei.
O HOMEM. - E eu? E eu?

(Silêncio)

Tenho de ir, tenho de sair, tenho de comer...

(Silêncio)

Tu não és a puta e eu não sou o homem.

(Silêncio)

Morreremos como todo o mundo, mesmo que o mundo seja eu e o que está ao lado. O mundo acaba todos os dias.

A PUTA. - Gosto muito de ti.
O HOMEM. - Não te empenhes. A beleza corpo a corpo é impossível. E às vezes o corpo é tão gigantesco, tão aterrorizante na sua imensidão.


(Silêncio)

Não somos os proprietários do sofrimento.


(Silêncio)

Vou-me embora.
«
(Silêncio)

Viveremos felizes sofrendo, dando ao fole como loucos, comendo como porcos. Vamos embora.


(Silêncio)

Será que não posso ter medo?

(Silêncio)

Vamos embora. Podemos passear pelo parque, ir ao cinema, à praia.


A PUTA. (Vai-se, sai)

O HOMEM. - Podemos! Eu posso. Vou-me embora. Ninguém vai morrer por mim porque eu sou repugnante. Ouves-me? Oferecer-te-ei flores, brincos, caixinhas de música, bombons, convidar-te-ei a jantar, escrever-te-ei cartas. Vamos. Vou-me embora. Onde estás? Vamos, vamo-nos embora já.

A PUTA (Entra com uma bandeja sobre a qual treme a brancura dos seus peitos recém-cortados). Aqui tens o meu corpo. Aqui tens a tua inversão. Pagaste e a puta morrerá irremediavelmente. É teu. Toma. Toma-o como o tomaste nessa altura, no dia em que fizeste brotar e desaguaste todos os meus líquidos, quando me converteste em fonte e me deixaste seca, estéril, incapaz de derramar uma só gota de nada, eternamente viúva. Sinto-me tão áspera que o ar faz ruído ao soprar no meu ventre e ao tropeçar contra o papel de lixa. Podia contar todos os meus órgãos porque todos me doem separadamente, porque todos estão rodeados por pequenos desertos que se encravam em forma pequena e arranham com a violência de uma unha traída mas até o sangue que deveriam expulsar por semelhante castigo é um coágulo. Recordo o cheiro das minhas primeiras humidades temperadas, brotando, resvalando, perfumando um prazer torpe ainda, aquele jorrinho tímido que descia até ao joelho e molhava o lençol. Onde estão os lençóis molhados? Onde estão aqueles charcos que transformávamos em mares? Quem descobriu o meu sexo foi o mesmo que o amputou. Já não posso considerar-me mulher. Uma mulher é a carícia que prediz as chuvas do seu amado. Chuvas? Tormentas! Tempestades! Inundações. Quem foge das catástrofes? Às vezes sinto que se me incha o cérebro de pensar tanto nele. Então bebo e bebo até provocar o vómito. Vomitando imagino que vomito todo o suplício. Imagino que ao acordar pela manhã, depois dessa horrível purga alcoólica, vou ser livre, mas comprovo que não só não sou livre mas também que a obsessão se multiplicou pelas minhas já novecentas noites de espantoso cativeiro, e sinto-me velha, suja, disforme, enrugada... Quem pode amar uma criatura assim? Quem pode amar tal monstro? De súbito, como que sacudida por uma loucura precoce, procuro desesperada o lugar do meu corpo onde se aloja o meu antigo amante: esfrego as gengivas até as fazer sangrar, lavo-me com água a ferver para ver se a minha pele se esfola, introduzo os dedos no meu sexo procurando alcançar o fundo do útero, ensaboo os olhos para chorar ainda mais. Talvez seja nos meus olhos que tenho cravados os seus beijos. Mas esgotada após tanta procura inútil, apenas desejo encontrar um lugar onde possa morrer, ir embora com a serenidade com que os elefantes caminham para o cemitério. Aí chegada não comeria nem beberia. Morreria por fim, e a última imagem, a miragem estentórea da inanição e da desidratação, seria o seu sexo mutilado dentro da minha boca, quase penetrando-me a garganta, derramando o seu líquido morno. Tudo começou com uma terrível missa de defuntos. Olhos vendados antes de pisar o altar, muitos lençóis brancos. A beleza tornou-se maldita e agora é impossível ouvir aquela missa sem destroçar o coração. Antes de havê-la feito sonhar deveríamos ter compreendido que era música de mortos. E ainda me pedes que não morra. Para não morrer de amor! Morrerei quantas vezes seja preciso até que não fique nem um só homem no mundo pelo qual não me tenham enterrado, até que não tenha vendido toda a dor, esta dor infinita. Que não morra! Não vês? Não vês que tenho de morrer?

O HOMEM. (Cai de joelhos abraçando-se aos pés da puta com um beijo)

-9-

VOZ DA PUTA.- Agora que todos sabem que posso matar-me por amor em qualquer momento, agora, terão que pagar o dobro para que não me mate.